Sikkim, o delicado e misterioso reino de Buda
Menos conhecido do que seus vizinhos Nepal e Butão, este refúgio no Himalaia é a mais acabada versão de paraíso perdido. Vale a pena desbravá-lo
Texto e Fotos de Mauro Chwarts, de Gangtok
Matéria publicada na edição 182 (Junho/2007) de Terra
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Nepal, Butão e Sikkim. Durante séculos esses três pequenos reinos, acomodados nas encostas do Himalaia, disputaram entre si o título de mais perfeita tradução do Shangri-lá, a mítica terra da paz e sabedoria descrita por James Hilton, no livro Horizonte Perdido. Cada um deles tocando a vida com a leveza ensinada por Buda, deixando os confortos da civilização do lado de fora. As torres de seus templos e castelos saltando douradas contra o fundo branco da paisagem gelada, os sinos badalando, monges descendo de seu pedestal transcendental para receber as oferendas que brotavam fartas a seus pés, peregrinos vindos de longe para venerar seus deuses.
Em cada um desses reinos um monarca imponente encerrava o poder, com um quê de divino. De tempos em tempos, esse toque de divindade se esvaía ao sabor de ligeiras rebeliões, um pouco de sangue real, divino e plebeu jorrava, e tudo voltava ao normal sob nova administração. As chuvas de verão continuavam lembrando que tudo aquilo tinha sido mar um dia, o outono era marcado pelo brilho das roças de arroz e milho nos terraços entalhados nas encostas, o inverno tornava os homens mais duros e a primavera inundava os bosques de um rododendro vermelho agudo. E assim era a história, até que um dia, em 1948, a Índia ficou independente. E, pior: democrática, tendo como vizinha uma ameaçadora China recém-convertida ao comunismo.
Então esses reinos idílicos, com seus reis, deuses e demônios, caíram na real. Estavam espremidos, geográfica, política e economicamente entre duas nações gigantescas, antagônicas e inimigas - e tinham que escolher com qual vizinho poderoso se alinhar. O Nepal foi o primeiro a sair da toca. Flertou com todo mundo, ganhou um parlamento fraco e uma guerrilha maoísta anacrônica. O Butão, como um tatu acuado, preferiu se fechar ainda mais para o mundo. E o menor dos três, o Sikkim, optou por se incorporar à Índia num plebiscito em 1975, tornando-se desde então o mais peculiar dos estados indianos.
Ao contrário do que se poderia imaginar, porém, o Sikkim não se descaracterizou com isso e continua gozando de uma admirável autonomia. A família real apeada do poder não sofreu um arranhão sequer. A Índia, que abriga tantas etnias e religiões dentro do seu território, respeita tais diferenças, seja por ideologia, seja por falta de opção. O resultado é um Sikkim lindo, maravilhoso, razoavelmente intacto e com uma infra-estrutura já bastante razoável. Manteve o mito de país idílico e longínquo, mas entrou para o mapa dos grandes viajantes.
Com pouco mais de 7 mil quilômetros quadrados - um terço do território de Sergipe, ou menos de cinco vezes a área do município de São Paulo -, o Sikkim é para ser explorado por quem tem os pés no chão. O aeroporto mais próximo fica no estado vizinho de West Bengal, a 120 quilômetros de Gangtok, a capital e maior cidade do Sikkim, com 50 mil habitantes. Aqui, o Himalaia molda vales profundos que se alinham, quase todos, no eixo norte-sul. No ponto mais alto da cordilheira, o Kanchenjunga, terceiro mais alto pico do mundo, com 8 586 metros, logo abaixo de Everest e do K2, desponta o tempo todo no horizonte de quem cruza a região de jipe em estradinhas apertadas à beira de precipícios.
As estradas, aliás, evoluíram muito desde a incorporação do território pela Índia. As antigas trilhas, que antes davam passagem apenas a viajantes a pé, foram alargadas para acomodar cavalos e agora já aceitam um jipe por vez. Quando dois jipes se encontram em sentidos contrários - o que deveria ser normal numa estrada - tem início uma delicada operação para acomodar os dois veículos num ponto mais largo da pista. O jipe que tiver a encosta à sua direita pára bem rente ao paredão, deixando para o outro o risco de flertar com o abismo, que pode chegar a 2 mil metros de altura. Como cada milímetro de espaço é importante nessa hora, os espelhos retrovisores são rebatidos. É sempre emocionante.
Não é exagero dizer que cada encosta no Sikkim tem uma estrada, e cada cocuruto de montanha abaixo de 3 mil metros tem uma vila, com templos, monges e, caso já tenha sido desbravada por viajantes, um hotel. A mais proeminente dessas vilas, Darjeeling, é apenas vizinha do Sikkim, mas se identifica muito mais com esse território do que com o resto da Índia. Fundada pelos ingleses para ser uma estação de veraneio, logo se transformou num grande produtor de chá - daí emprestar seu nome à variedade mais apreciada pela Coroa britânica. Para garantir o abastecimento de chá, os ingleses importaram trabalhadores nepaleses, modificando a composição étnica original da região. Hoje uma cidade frondosa, Darjeeling é o melhor ponto de partida para o Sikkim, que, além do chá, firmou-se como produtor de outras delicadezas, como o cardamomo e o gengibre, além de refúgio de nada menos de 450 espécies de orquídeas.
Já de imediato, na primeira madrugada, o Kanchenjunga amanhece róseo e ganha luminosidade num processo quase encantado, que dura uns 20 minutos. Se um dia vier para cá, não perca esse espetáculo. Com a sorte de um amanhecer sem nuvens, você adiciona ao Kanchenjunga muitas outras montanhas de belos recortes, como as alojadas no Butão, a leste, e nada menos que o Monte Everest, a oeste. Caminho natural e mais direto entre a Índia e o Tibet, o Sikkim deu passagem à expedição militar que os ingleses montaram no início do século 20, levando Francis Younghusband até o coração do Tibet. E, naturalmente, foi e continua sendo trampolim para os ataques dos alpinistas a muitos picos do Himalaia.
Até o início dos anos 1950, quando o Nepal abriu suas fronteiras, todas as subidas ao Monte Everest eram através da face norte, pelo Tibet, e o Sikkim era o único caminho viável. Tenzing Sherpa, que conquistou o Everest pela primeira vez com o neozelandês Edmund Hillary, em 1953, morava em Darjeeling e está enterrado lá, num dos mais célebres institutos de montanhismo do planeta. Tal era a dificuldade de acesso aos picos da região do Everest, que até o final do século 19 atribuía-se ao Kanchejunga - de fácil acesso na fronteira do Sikkim com o Nepal - a maior altitude do planeta.
O visto para a Índia não dá livre acesso ao Sikkim. Uma vez em território indiano, é preciso obter uma permissão doméstica, algo como um pseudovisto para um pseudopaís, que você apresenta numa pseudofronteira do Sikkim. Mas assim que se entra nesse pequeno Shangri- lá, parece que a Índia ficou inteiramente para trás. O idioma é quase nepalês, as feições dos nativos são sino-mongóis e os templos, do mais puro estilo tibetano.
O Sikkim foi fundado pela dinastia Nangyal, em 1642, quando três lamas budistas encontraram- se em Yukson e escolheram o rei. Hoje, como sua vizinha Pelling, Yukson é um pequeno aglomerado urbano composto por hotéis simples e vive exclusivamente do turismo. A antiga capital logo foi transferida para Rabdanste, nas imediações de Pelling e do majestoso templo de Pemayangtse.
Rabdanste também foi abandonada, não se sabe bem por quê. Suas ruínas de pedra estão numa crista de montanha de onde se vê o Kanchenjunga de pertinho, além de oferecer o comando visual por uma extensa vastidão montanhosa em todas as direções. Rabdanste tem, à primeira vista, algo de Machu Picchu, impressão que se consolida a cada minuto de permanência lá. O mesmo espetáculo visual se repete no templo e mosteiro de Pemayangtse.
Ao contrário da simplicidade monocromática das ruínas da capital, os telhados amarelos do mosteiro, a dança colorida das flâmulas de oração ao vento e o vaivém de monges e "coroinhas" com seus robes cor de açafrão inebriam as lentes de sua câmera. Aliás, nesta era digital, em que fotografar é de graça, Pemayangtse é um delírio na hora da visita e uma tortura em casa: o que se faz com tanta foto da mesma coisa? Você tem coragem de simplesmente apagar?
Em vez de uma nave central escura e amanteigada - esse é o clássico arquitetônico tibetano -, Pemayangtse é arejado, claro, amplo e surpreendentemente limpo. Ao que parece, os monges do Sikkim descobriram alguma forma revolucionária de transportar manteiga de iaque derretida desde a cozinha até as lamparinas sem derramar nada. Alguém precisa contar a novidade ao Dalai Lama. Tampouco tem em Pemayangtse um Buda dourado com 8 metros de envergadura no centro de tudo. Em vez disso, há uma escultura fascinante e única, representando os diversos estágios da existência humana, em vida e fora dela. A escultura é tão fascinante como a teoria que ela representa; e igualmente rebuscada.
Gangtok, a capital do Sikkim, é a versão ampliada de uma vila de montanha. Seus habitantes penduram-se numa encosta absolutamente íngreme, onde nenhuma rua é plana por mais de 200 metros - e a diferença entre a rua mais baixa e a mais alta é de espantosos 800 metros, o dobro do nosso Pão de Açúcar. Gangtok é uma simbiose curiosa entre modernices urbanas e tradição budista, onde todas as marcas, de Karmapa a Toyota, disputam a rua em pé de igualdade. Pensando melhor, a julgar pelos letreiros luminosos na Mahatma Gandhi Marg, a rua central, uma certa marca tibetana anda perdendo espaço para concorrentes asiáticas, tais como LG, Panasonic e Nokia. O happy hour na M. G.Marg, como se diz lá, é endereço certo de todo vendedor, comprador, viajantes e seres afins.
O mosteiro de Rumtek, na periferia de Gangtok, é o maior e mais importante do Sikkim. Foi construído nos anos 1960 pelo 16o Karmapa, o líder de uma das quatro correntes do budismo tibetano, para ser a sede da seita de mesmo nome. Em 1992, foi palco de um inusitado conflito entre facções budistas (veja quadro abaixo) e, desde então, tem sido guardado por policiais indianos, o que não deixa de ser uma imagem chocante para quem só espera encontrar reza e meditação. Gangtok tem ainda uma das melhores coleções de objetos raros tibetanos. A delicadeza dessas peças salta ao olhos de qualquer leigo. Aliás, ainda para os leigos: o museu é minúsculo, uma única sala, nada repetido nem cansativo, e rapidamente se vê tudo. Ideal, não é?
É de Gangtok que se parte para o cantinho mais remoto do Sikkim, o Vale de Yumtang. Para lá, nem o pseudovisto para o Sikkim basta: é preciso uma permissão especial e o acompanhamento de um olheiro do governo, que não abre a boca nem olha nada, mas precisa estar do nosso lado, ocupando um assento no jipe. O sobe-e-desce do caminho cria cenários incríveis conforme o sol e a montanha levam luz e sombra a dançarem uma coreografia não muito usual para habitantes do gigante adormecido. Ganha-se altitude e perde-se temperatura à medida que vacas viram iaques e a neve, de pano de fundo, vira "pano de chão". Os forasteiros, já tão poucos em Gangtok e Pelling, somem por completo.
O Vale de Yumtang, no coração do Himalaia, está a meros 10 quilômetros do Tibet. As montanhas ao redor estão cobertas com uma camada espessa de neve em plena primavera. Estão a 7 mil metros de altura, algumas a 8 mil, mas nem parecem tão altas - provavelmente porque o próprio Yumtang está num patamar de 3 500 metros. A atmosfera de misticismo - que envolve os viajantes desde o momento em que cruzam a fronteira para o Sikkim - é ainda mais intensa. Fica no ar também uma sensação rara, e bastante agradável, que se costuma perceber apenas no final de viagens exploratórias muito especiais. A sensação de ter acertado em cheio na escolha do lugar.
Construído para acolher orações e inspirar meditação, o mosteiro de Rumtek, em Gangtok, foi palco 15 anos atrás de uma batalha acalorada entre representantes da linhagem budista karmapa e seguidores do Dalai Lama. A origem do conflito remonta a 1981, quando o 16o Karmapa morreu e deu-se início ao longo processo de identificação de sua nova encarnação, o futuro 17o Karmapa, conduzido pelo abade-chefe de Rumtek. Tudo corria bem até o anúncio por "monges da oposição" de um candidato a 17o Karmapa localizado no Tibet. Pior: com aval do governo chinês e aprovação do Dalai Lama, ambos claramente opinando onde não foram chamados. E tem mais: com o auxílio da polícia local do Sikkim e algum suborno, os monges da "oposição" tomaram Rumtek de assalto, como num filme de kung fu, ficando lá por uma década, até perderem o controle do mosteiro na Justiça. Para que a ordem fosse restabelecida em Rumtek, o Exército indiano precisou intervir e mantém até hoje tropas dentro do complexo.
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Em cada um desses reinos um monarca imponente encerrava o poder, com um quê de divino. De tempos em tempos, esse toque de divindade se esvaía ao sabor de ligeiras rebeliões, um pouco de sangue real, divino e plebeu jorrava, e tudo voltava ao normal sob nova administração. As chuvas de verão continuavam lembrando que tudo aquilo tinha sido mar um dia, o outono era marcado pelo brilho das roças de arroz e milho nos terraços entalhados nas encostas, o inverno tornava os homens mais duros e a primavera inundava os bosques de um rododendro vermelho agudo. E assim era a história, até que um dia, em 1948, a Índia ficou independente. E, pior: democrática, tendo como vizinha uma ameaçadora China recém-convertida ao comunismo.
Então esses reinos idílicos, com seus reis, deuses e demônios, caíram na real. Estavam espremidos, geográfica, política e economicamente entre duas nações gigantescas, antagônicas e inimigas - e tinham que escolher com qual vizinho poderoso se alinhar. O Nepal foi o primeiro a sair da toca. Flertou com todo mundo, ganhou um parlamento fraco e uma guerrilha maoísta anacrônica. O Butão, como um tatu acuado, preferiu se fechar ainda mais para o mundo. E o menor dos três, o Sikkim, optou por se incorporar à Índia num plebiscito em 1975, tornando-se desde então o mais peculiar dos estados indianos.
Ao contrário do que se poderia imaginar, porém, o Sikkim não se descaracterizou com isso e continua gozando de uma admirável autonomia. A família real apeada do poder não sofreu um arranhão sequer. A Índia, que abriga tantas etnias e religiões dentro do seu território, respeita tais diferenças, seja por ideologia, seja por falta de opção. O resultado é um Sikkim lindo, maravilhoso, razoavelmente intacto e com uma infra-estrutura já bastante razoável. Manteve o mito de país idílico e longínquo, mas entrou para o mapa dos grandes viajantes.
Com pouco mais de 7 mil quilômetros quadrados - um terço do território de Sergipe, ou menos de cinco vezes a área do município de São Paulo -, o Sikkim é para ser explorado por quem tem os pés no chão. O aeroporto mais próximo fica no estado vizinho de West Bengal, a 120 quilômetros de Gangtok, a capital e maior cidade do Sikkim, com 50 mil habitantes. Aqui, o Himalaia molda vales profundos que se alinham, quase todos, no eixo norte-sul. No ponto mais alto da cordilheira, o Kanchenjunga, terceiro mais alto pico do mundo, com 8 586 metros, logo abaixo de Everest e do K2, desponta o tempo todo no horizonte de quem cruza a região de jipe em estradinhas apertadas à beira de precipícios.
As estradas, aliás, evoluíram muito desde a incorporação do território pela Índia. As antigas trilhas, que antes davam passagem apenas a viajantes a pé, foram alargadas para acomodar cavalos e agora já aceitam um jipe por vez. Quando dois jipes se encontram em sentidos contrários - o que deveria ser normal numa estrada - tem início uma delicada operação para acomodar os dois veículos num ponto mais largo da pista. O jipe que tiver a encosta à sua direita pára bem rente ao paredão, deixando para o outro o risco de flertar com o abismo, que pode chegar a 2 mil metros de altura. Como cada milímetro de espaço é importante nessa hora, os espelhos retrovisores são rebatidos. É sempre emocionante.
Não é exagero dizer que cada encosta no Sikkim tem uma estrada, e cada cocuruto de montanha abaixo de 3 mil metros tem uma vila, com templos, monges e, caso já tenha sido desbravada por viajantes, um hotel. A mais proeminente dessas vilas, Darjeeling, é apenas vizinha do Sikkim, mas se identifica muito mais com esse território do que com o resto da Índia. Fundada pelos ingleses para ser uma estação de veraneio, logo se transformou num grande produtor de chá - daí emprestar seu nome à variedade mais apreciada pela Coroa britânica. Para garantir o abastecimento de chá, os ingleses importaram trabalhadores nepaleses, modificando a composição étnica original da região. Hoje uma cidade frondosa, Darjeeling é o melhor ponto de partida para o Sikkim, que, além do chá, firmou-se como produtor de outras delicadezas, como o cardamomo e o gengibre, além de refúgio de nada menos de 450 espécies de orquídeas.
DANÇA DE CORES AO AMANHECER
Já de imediato, na primeira madrugada, o Kanchenjunga amanhece róseo e ganha luminosidade num processo quase encantado, que dura uns 20 minutos. Se um dia vier para cá, não perca esse espetáculo. Com a sorte de um amanhecer sem nuvens, você adiciona ao Kanchenjunga muitas outras montanhas de belos recortes, como as alojadas no Butão, a leste, e nada menos que o Monte Everest, a oeste. Caminho natural e mais direto entre a Índia e o Tibet, o Sikkim deu passagem à expedição militar que os ingleses montaram no início do século 20, levando Francis Younghusband até o coração do Tibet. E, naturalmente, foi e continua sendo trampolim para os ataques dos alpinistas a muitos picos do Himalaia.
Até o início dos anos 1950, quando o Nepal abriu suas fronteiras, todas as subidas ao Monte Everest eram através da face norte, pelo Tibet, e o Sikkim era o único caminho viável. Tenzing Sherpa, que conquistou o Everest pela primeira vez com o neozelandês Edmund Hillary, em 1953, morava em Darjeeling e está enterrado lá, num dos mais célebres institutos de montanhismo do planeta. Tal era a dificuldade de acesso aos picos da região do Everest, que até o final do século 19 atribuía-se ao Kanchejunga - de fácil acesso na fronteira do Sikkim com o Nepal - a maior altitude do planeta.
ENIGMÁTICA CIDADE DE PEDRAS
O visto para a Índia não dá livre acesso ao Sikkim. Uma vez em território indiano, é preciso obter uma permissão doméstica, algo como um pseudovisto para um pseudopaís, que você apresenta numa pseudofronteira do Sikkim. Mas assim que se entra nesse pequeno Shangri- lá, parece que a Índia ficou inteiramente para trás. O idioma é quase nepalês, as feições dos nativos são sino-mongóis e os templos, do mais puro estilo tibetano.
O Sikkim foi fundado pela dinastia Nangyal, em 1642, quando três lamas budistas encontraram- se em Yukson e escolheram o rei. Hoje, como sua vizinha Pelling, Yukson é um pequeno aglomerado urbano composto por hotéis simples e vive exclusivamente do turismo. A antiga capital logo foi transferida para Rabdanste, nas imediações de Pelling e do majestoso templo de Pemayangtse.
Rabdanste também foi abandonada, não se sabe bem por quê. Suas ruínas de pedra estão numa crista de montanha de onde se vê o Kanchenjunga de pertinho, além de oferecer o comando visual por uma extensa vastidão montanhosa em todas as direções. Rabdanste tem, à primeira vista, algo de Machu Picchu, impressão que se consolida a cada minuto de permanência lá. O mesmo espetáculo visual se repete no templo e mosteiro de Pemayangtse.
Ao contrário da simplicidade monocromática das ruínas da capital, os telhados amarelos do mosteiro, a dança colorida das flâmulas de oração ao vento e o vaivém de monges e "coroinhas" com seus robes cor de açafrão inebriam as lentes de sua câmera. Aliás, nesta era digital, em que fotografar é de graça, Pemayangtse é um delírio na hora da visita e uma tortura em casa: o que se faz com tanta foto da mesma coisa? Você tem coragem de simplesmente apagar?
Em vez de uma nave central escura e amanteigada - esse é o clássico arquitetônico tibetano -, Pemayangtse é arejado, claro, amplo e surpreendentemente limpo. Ao que parece, os monges do Sikkim descobriram alguma forma revolucionária de transportar manteiga de iaque derretida desde a cozinha até as lamparinas sem derramar nada. Alguém precisa contar a novidade ao Dalai Lama. Tampouco tem em Pemayangtse um Buda dourado com 8 metros de envergadura no centro de tudo. Em vez disso, há uma escultura fascinante e única, representando os diversos estágios da existência humana, em vida e fora dela. A escultura é tão fascinante como a teoria que ela representa; e igualmente rebuscada.
NO JIPE COM O OLHEIRO
Gangtok, a capital do Sikkim, é a versão ampliada de uma vila de montanha. Seus habitantes penduram-se numa encosta absolutamente íngreme, onde nenhuma rua é plana por mais de 200 metros - e a diferença entre a rua mais baixa e a mais alta é de espantosos 800 metros, o dobro do nosso Pão de Açúcar. Gangtok é uma simbiose curiosa entre modernices urbanas e tradição budista, onde todas as marcas, de Karmapa a Toyota, disputam a rua em pé de igualdade. Pensando melhor, a julgar pelos letreiros luminosos na Mahatma Gandhi Marg, a rua central, uma certa marca tibetana anda perdendo espaço para concorrentes asiáticas, tais como LG, Panasonic e Nokia. O happy hour na M. G.Marg, como se diz lá, é endereço certo de todo vendedor, comprador, viajantes e seres afins.
O mosteiro de Rumtek, na periferia de Gangtok, é o maior e mais importante do Sikkim. Foi construído nos anos 1960 pelo 16o Karmapa, o líder de uma das quatro correntes do budismo tibetano, para ser a sede da seita de mesmo nome. Em 1992, foi palco de um inusitado conflito entre facções budistas (veja quadro abaixo) e, desde então, tem sido guardado por policiais indianos, o que não deixa de ser uma imagem chocante para quem só espera encontrar reza e meditação. Gangtok tem ainda uma das melhores coleções de objetos raros tibetanos. A delicadeza dessas peças salta ao olhos de qualquer leigo. Aliás, ainda para os leigos: o museu é minúsculo, uma única sala, nada repetido nem cansativo, e rapidamente se vê tudo. Ideal, não é?
É de Gangtok que se parte para o cantinho mais remoto do Sikkim, o Vale de Yumtang. Para lá, nem o pseudovisto para o Sikkim basta: é preciso uma permissão especial e o acompanhamento de um olheiro do governo, que não abre a boca nem olha nada, mas precisa estar do nosso lado, ocupando um assento no jipe. O sobe-e-desce do caminho cria cenários incríveis conforme o sol e a montanha levam luz e sombra a dançarem uma coreografia não muito usual para habitantes do gigante adormecido. Ganha-se altitude e perde-se temperatura à medida que vacas viram iaques e a neve, de pano de fundo, vira "pano de chão". Os forasteiros, já tão poucos em Gangtok e Pelling, somem por completo.
O Vale de Yumtang, no coração do Himalaia, está a meros 10 quilômetros do Tibet. As montanhas ao redor estão cobertas com uma camada espessa de neve em plena primavera. Estão a 7 mil metros de altura, algumas a 8 mil, mas nem parecem tão altas - provavelmente porque o próprio Yumtang está num patamar de 3 500 metros. A atmosfera de misticismo - que envolve os viajantes desde o momento em que cruzam a fronteira para o Sikkim - é ainda mais intensa. Fica no ar também uma sensação rara, e bastante agradável, que se costuma perceber apenas no final de viagens exploratórias muito especiais. A sensação de ter acertado em cheio na escolha do lugar.
KING FU NO MOSTEIRO
Construído para acolher orações e inspirar meditação, o mosteiro de Rumtek, em Gangtok, foi palco 15 anos atrás de uma batalha acalorada entre representantes da linhagem budista karmapa e seguidores do Dalai Lama. A origem do conflito remonta a 1981, quando o 16o Karmapa morreu e deu-se início ao longo processo de identificação de sua nova encarnação, o futuro 17o Karmapa, conduzido pelo abade-chefe de Rumtek. Tudo corria bem até o anúncio por "monges da oposição" de um candidato a 17o Karmapa localizado no Tibet. Pior: com aval do governo chinês e aprovação do Dalai Lama, ambos claramente opinando onde não foram chamados. E tem mais: com o auxílio da polícia local do Sikkim e algum suborno, os monges da "oposição" tomaram Rumtek de assalto, como num filme de kung fu, ficando lá por uma década, até perderem o controle do mosteiro na Justiça. Para que a ordem fosse restabelecida em Rumtek, o Exército indiano precisou intervir e mantém até hoje tropas dentro do complexo.
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