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Matéria publicada na edição 183 (Julho/2007) de Terra


Valdemir Cunha

Serra da Capivara: 737 sítios arqueológicos conhecidos e muitos ainda a ser descobertos

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Ainda existem índios isolados no Brasil?
Patrícia Martins, por e-mail

Muitos. Segundo o mais recente levantamento da Funai (Fundação Nacional do Índio), há pelo menos 63 tribos vivendo em total isolamento, embora sinais de sua presença já tenham sido detectados por sertanistas ou moradores de regiões remotas do país. Elas se escondem no vasto território formado pelos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Goiás, Tocantins e parte do Maranhão. Estatísticas à parte, é preciso tomar muito cuidado na abordagem a esses povos. Quando malconduzido, o primeiro encontro com uma tribo isolada pode causar muitas mortes, e até levar à sua aniquilação a médio prazo.

Mesmo em comunidades que estão na quarta geração pós-contato, uma epidemia de diarréia, por exemplo, chega a matar até 20 crianças numa sociedade de mil pessoas. Nossas doenças praticamente dizimaram a população indígena que vivia por aqui na época do Descobrimento. Estima-se que havia 10 milhões de nativos no Brasil em 1500, população que foi drasticamente reduzida aos atuais 460 mil indivíduos. A situação chegou até a ser pior, segundo estudo do saudoso antropólogo Darcy Ribeiro, que mostrava a redução da população indígena no país de 1 milhão para 200 mil entre os anos 1920 e 1970.
Esse dado preocupante levou o governo federal a mudar sua política oficial de "integração" a todo custo dos índios à sociedade. Hoje os povos isolados são monitorados a distância, a fim de preservar suas terras, e, acima de tudo, suas identidades. A Funai opera desde 1987 uma unidade responsável pela localização e proteção dos índios isolados. O trabalho se dá por meio de sete equipes, denominadas Frentes de Contato, atuando nos estados do Amazonas, Pará, Acre, Mato Grosso, Rondônia e Goiás. No início de 2007, cerca de 87 índios da etnia Metyktire fugiram para uma aldeia caiapó no município de Peixoto de Azevedo, depois de perseguidos por um grupo armado, provavelmente formado por garimpeiros ou madeireiros ilegais. O grupo vivia isolado no norte do Mato Grosso há pelo menos 50 anos, depois que parte deles resolveu manter contato com os brancos.

É possível visitar todos os sítios pré-históricos da Serra da Capivara, no Piauí?
Rafael Lima Júnior, por e-mail

Não, Rafael, até porque seriam necessários meses para você percorrer todos eles. Dos muitos sítios arqueológicos - conhecidos ou ainda a ser descobertos - da Serra da Capivara, no sudoeste do Piauí, há 737 catalogados e, destes, 64 podem ser visitados. Os demais ainda estão sendo estudados ou não têm a proteção adequada para ser abertos ao público. O conjunto já liberado, em todo o caso, reúne a maior coleção de achados pré-históricos no Brasil. Afinal, a Serra da Capivara, transformada em parque nacional em 1979, com 129 mil hectares, tem a maior concentração de sítios pré-históricos das Américas, fato este que lhe garantiu o título de Patrimônio Cultural da Humanidade.
As trilhas que percorrem as chapadas, vales e planícies da região levam a lugares que foram habitados há pelo menos 50 mil anos. Pelo menos é isso que afirma a arqueóloga brasileira Niède Guidon, que em 1978 encontrou vestígios de presença humana no Boqueirão da Pedra Furada. Se a especialista estiver certa, a descoberta mudaria a atual teoria de ocupação das Américas, baseada na passagem de grupos vindos da Sibéria pelo Estreito de Bering, entre o Alasca e a Rússia.

Polêmicas científicas à parte, o fato é que a Serra da Capivara é uma legítima aula de história - ou melhor, de Pré-História. Desde 1970, quando começaram as pesquisas arqueológicas na região, pelo menos 30 mil pinturas foram encontradas nas rochas, além de inúmeros esqueletos humanos, artefatos em pedra polida e cerâmica, inscrições rupestres e fósseis de animais pré-históricos, como tigres dente-de-sabre e preguiças-gigantes. No Circuito dos Veadinhos Azuis, por exemplo, há quatro sítios com várias pinturas azuis, tidas como as primeiras dessa cor descobertas no mundo.