Bom pra cachorro
Foram dois dias de muito esporte radical para Betinho. Ele gostou, mas não muito, do rafting (na foto, ele está morrendo de frio e de medo no colo de sua preocupada dona). Na proa, está Thor, habitué das aventuras caninas em Brotas, a cidade paulista famosa pelos esportes na natureza. No dia seguinte, o cocker preto se soltaria durante um trekking para duas cachoeiras e aprovaria com latidos ensurdecedores seu agitado final de semana
Henrique Skujis
Matéria publicada na edição 183 (Julho/2007) de Terra
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Betinho não é o elegante golden retriever que capitaneia o bote. Ele é o cocker spaniel preto que aparece meio encabulado na popa, deitado no colo de sua preocupada dona. Está acuado. O rio manso não lhe engana. Ele sabe que logo ali, depois daquele tronco caído, uma nova corredeira vai sacudir a embarcação e ele vai escorregar e cair. Thor, ao contrário, quase abre um sorriso à espera da nova turbulência.
Os dois cães estão entre os pioneiros em uma nova modalidade de esporte "radical": o rafting que admite a bordo os animais acompanhados por seus donos. A idéia surgiu quando os funcionários de uma agência de ecoturismo de Brotas, no interior de São Paulo, começaram a levar seus animais para passear de bote pelas corredeiras do Rio Jacaré-Pepira. "Quando eu ia fazer o rafting, meu casal de goldens ficava triste na beira do rio. Até que um dia resolvi levá-los", conta Maria Bittencourt, de 32 anos, da Brotas Aventura. Passeio vai, passeio vem, surgiu a idéia óbvia e ao mesmo tempo ousada de comercializar a brincadeira, que, diga-se, não está sendo das mais divertidas para Betinho.
Naquele sábado de junho, calhou de uma frente gelada derrubar a temperatura abaixo dos 12 graus - clima raro na cidade. Thor não estava nem aí para o disparate meteorológico. Sua grossa camada de pêlos o protege do vento gelado, e seus quase 50 quilos lhe dão equilíbrio suficiente para não desabar. Ele anda de um lado para o outro no bote. A administradora de empresas paulistana Andréa Mazza, sua dona, apenas rema e observa a beleza do rio e da Mata Atlântica preservada nas margens. Passa um filhote de tucano. Voa um outro pássaro de peito amarelo. Pousa um de rabo branco. Teias de enormes aranhas bóiam no ar acima da cabeça dos viajantes. O céu está cinza e uma garoa insiste em tornar a vida de Betinho mais dura. Até o dia anterior, o cocker, de 10 anos de idade, ficava em casa, deitado em uma confortável caminha acolchoada, preocupado apenas com seus passeios diários pelo Parque da Aclimação, na Zona Sul de São Paulo.
Cláudia Farhi, a dona de Betinho, vitrinista em São Paulo, acolhe o cachorro em seus braços e tenta incentivá- lo. Mas o animalzinho elétrico, acostumado a dar piques frenéticos entre as árvores do parque, parece não estar nem aí para a diversão. Desde que entrou no ônibus em direção ao píer de embarque, Betinho não escondeu o ciúme ao dar de cara com Thor. Um ou dois dias antes, o grandalhão e dócil golden havia levado uma mordida na cabeça durante outro passeio e estranhava a presença do cocker. Foram quase 30 minutos de rosnadas e latidos de ambas as partes. Os organizadores do passeio procuraram evitar que os dois animais embarcassem no mesmo bote, mas naquele dia não teve jeito. Thor, Betinho e mais quatro seres humanos tiveram de dividir juntos uma embarcação com menos de 7 metros quadrados.
"No bote, os cachorros não vão amarrados", explica Caco, instrutor de rafting e nosso guia naquela manhã chuvosa. Por isso, seria preciso manter os animais com o peitoral para que pudessem ser controlados em caso de necessidade. "Se precisarem segurar o cachorro, podem largar o remo. A prioridade é o animal", completou Caco, enquanto nos entregava os equipamentos de conforto e segurança. Cada um de nós recebeu uma jaqueta impermeável , um capacete e um colete salva-vidas. Os dois cães, apenas os últimos dois itens.
Como o passeio é novidade, a Brotas Aventura ainda não oferece coletes flutuantes para os cães. Nós levamos o nosso, e Thor usava o seu, feito sob medida em uma loja a pedido de Andréa. Em breve, a agência promete colete, toalha e até uma ducha quente para os cães no final do passeio em dias frios. Era tudo que Betinho precisava naquele momento. Depois de superar três corredeiras, o cãozinho desembarcou aliviado em uma pequena praia na margem direita do rio. Mas não deixou de reclamar. Corria de um lado para o outro e latia bravo, como se quisesse dizer que rio é lugar de peixe.
Mas ao ver Thor dentro da água, paparicado pelo fotógrafo e até por sua própria dona, Betinho não resistiu. E mergulhou de volta para o bote. Suportou o frio por menos de um minuto, tempo suficiente para encharcar seu colete e seu corpo. A metade final do passeio seria um misto de contemplação da natureza de Brotas com uma torcida para que o rafting acabasse logo para que Betinho, agora enrolado na minha blusa no colo de Cláudia, pudesse escapar da hipotermia.
Exageros à parte, segui remando rio abaixo sob os comandos de Caco, certo de que Cláudia, Andréa e seus respectivos cães, em maior ou menor escala, estavam felizes da vida com aquele momento. "Poder levar o Thor para fazer rafting é uma das minhas maiores alegrias", dizia Andréa, que fazia o passeio pela terceira vez. "Tenho certeza de que ele pensa o mesmo." Cláudia sabe que o frio atrapalhou o "desempenho" de Betinho, mas garante que o cão preferia estar ali a ficar trancado num quarto do hotel. O dia seguinte provou isso, quando Betinho deitou e rolou durante um trekking pela Fazenda 3 Quedas. O cachorro não quis saber de calçar os tênis que você vê na última página desta reportagem. Resmungou e sacudiu as patas até que fossem retirados. A contragosto, aceitou levar a mochila com sua garrafinha de água e nem parecia aquele cão intimidado do dia anterior.
Por uma trilha íngreme e apertada, o cocker correu sem dar muita bola para o guia até a Cachoeira da Andorinha, de 23 metros de altura. Só não estava totalmente à vontade por causa do barulho da água, que lembrava o medo sentido no dia anterior, e também por estranhar ver duas pessoas penduradas numa corda fazendo rapel. No caminho para a Cachoeira da Figueira, uma queda de 47 metros, ele nem se incomodou em dividir o espaço com uma cadelinha vira-lata acostumada às trilhas da região. Beberam água e até ensaiaram uma brincadeira no lago formado pela cachoeira. Na volta, o casal de cães disparou e só freou na porteira de saída da fazenda, onde uma pinga com mel e um delicioso gramado esperavam seus donos. A parada seguinte de Betinho foi o banco traseiro do carro, onde no colo de Cláudia o cão dormiu de porta a porta.
1 Coloque uma plaquinha de identificação na coleira do animal
2 Aplique vermífugo e antiparasita
3 Leve o telefone do veterinário responsável pelo cão
4 Evite que ele coma nas horas que antecedem a viagem
5 Não esqueça dos documentos de identificação e vacinação
6 Leve uma garrafinha de água
7 No frio, não esqueça do cobertor
8 Não o transporte solto na caçamba ou dentro do carro
9 Prefira gaiolas presas a cintos de segurança
10 Faça paradas para ele beber água, movimentar-se e fazer as necessidades
11 Não deixe o animal sozinho dentro do carro
12 Verifique freqüentemente se está tudo bem com o cão
Está para nascer um policial militar rodoviário que vai apreender seu cachorro caso ele não esteja portando o Guia de Trânsito Animal (GTA). Mas é bom saber que o documento é obrigatório caso você pretenda cruzar divisas estaduais em sua viagem. Para tirá-lo, leve o atestado de saúde (se o animal tiver até 3 meses) ou a carteira de vacinação (para animais acima dessa idade) a um posto do Serviço Estadual de Defesa Animal ou a uma Delegacia Federal da Agricultura. Há também veterinários autorizados a emitir o GTA. Não esqueça ainda de levar o Registro Geral de Animais (RGA), que é a carteira de identidade dos bichos. Nele constam um número de identificação, nome, raça, data de nascimento e os dados do proprietário. O documento pode ser feito em pet shops credenciados, clínicas veterinárias e em centros de zoonoses.
A maneira mais segura de transportar seu cachorro nas viagens de carro é em gaiolas especiais presas a cintos de segurança, vendidas em pet shops. Se o seu cão for grande, o melhor é transportá-lo no porta-malas (mas só no caso de veículos em que o bagageiro tenha abertura para o banco traseiro). A dica é ensaiar uma familiarização do animal com a caixa no carro dias antes do embarque.
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Os dois cães estão entre os pioneiros em uma nova modalidade de esporte "radical": o rafting que admite a bordo os animais acompanhados por seus donos. A idéia surgiu quando os funcionários de uma agência de ecoturismo de Brotas, no interior de São Paulo, começaram a levar seus animais para passear de bote pelas corredeiras do Rio Jacaré-Pepira. "Quando eu ia fazer o rafting, meu casal de goldens ficava triste na beira do rio. Até que um dia resolvi levá-los", conta Maria Bittencourt, de 32 anos, da Brotas Aventura. Passeio vai, passeio vem, surgiu a idéia óbvia e ao mesmo tempo ousada de comercializar a brincadeira, que, diga-se, não está sendo das mais divertidas para Betinho.
Naquele sábado de junho, calhou de uma frente gelada derrubar a temperatura abaixo dos 12 graus - clima raro na cidade. Thor não estava nem aí para o disparate meteorológico. Sua grossa camada de pêlos o protege do vento gelado, e seus quase 50 quilos lhe dão equilíbrio suficiente para não desabar. Ele anda de um lado para o outro no bote. A administradora de empresas paulistana Andréa Mazza, sua dona, apenas rema e observa a beleza do rio e da Mata Atlântica preservada nas margens. Passa um filhote de tucano. Voa um outro pássaro de peito amarelo. Pousa um de rabo branco. Teias de enormes aranhas bóiam no ar acima da cabeça dos viajantes. O céu está cinza e uma garoa insiste em tornar a vida de Betinho mais dura. Até o dia anterior, o cocker, de 10 anos de idade, ficava em casa, deitado em uma confortável caminha acolchoada, preocupado apenas com seus passeios diários pelo Parque da Aclimação, na Zona Sul de São Paulo.
Cláudia Farhi, a dona de Betinho, vitrinista em São Paulo, acolhe o cachorro em seus braços e tenta incentivá- lo. Mas o animalzinho elétrico, acostumado a dar piques frenéticos entre as árvores do parque, parece não estar nem aí para a diversão. Desde que entrou no ônibus em direção ao píer de embarque, Betinho não escondeu o ciúme ao dar de cara com Thor. Um ou dois dias antes, o grandalhão e dócil golden havia levado uma mordida na cabeça durante outro passeio e estranhava a presença do cocker. Foram quase 30 minutos de rosnadas e latidos de ambas as partes. Os organizadores do passeio procuraram evitar que os dois animais embarcassem no mesmo bote, mas naquele dia não teve jeito. Thor, Betinho e mais quatro seres humanos tiveram de dividir juntos uma embarcação com menos de 7 metros quadrados.
"No bote, os cachorros não vão amarrados", explica Caco, instrutor de rafting e nosso guia naquela manhã chuvosa. Por isso, seria preciso manter os animais com o peitoral para que pudessem ser controlados em caso de necessidade. "Se precisarem segurar o cachorro, podem largar o remo. A prioridade é o animal", completou Caco, enquanto nos entregava os equipamentos de conforto e segurança. Cada um de nós recebeu uma jaqueta impermeável , um capacete e um colete salva-vidas. Os dois cães, apenas os últimos dois itens.
Como o passeio é novidade, a Brotas Aventura ainda não oferece coletes flutuantes para os cães. Nós levamos o nosso, e Thor usava o seu, feito sob medida em uma loja a pedido de Andréa. Em breve, a agência promete colete, toalha e até uma ducha quente para os cães no final do passeio em dias frios. Era tudo que Betinho precisava naquele momento. Depois de superar três corredeiras, o cãozinho desembarcou aliviado em uma pequena praia na margem direita do rio. Mas não deixou de reclamar. Corria de um lado para o outro e latia bravo, como se quisesse dizer que rio é lugar de peixe.
Mas ao ver Thor dentro da água, paparicado pelo fotógrafo e até por sua própria dona, Betinho não resistiu. E mergulhou de volta para o bote. Suportou o frio por menos de um minuto, tempo suficiente para encharcar seu colete e seu corpo. A metade final do passeio seria um misto de contemplação da natureza de Brotas com uma torcida para que o rafting acabasse logo para que Betinho, agora enrolado na minha blusa no colo de Cláudia, pudesse escapar da hipotermia.
Exageros à parte, segui remando rio abaixo sob os comandos de Caco, certo de que Cláudia, Andréa e seus respectivos cães, em maior ou menor escala, estavam felizes da vida com aquele momento. "Poder levar o Thor para fazer rafting é uma das minhas maiores alegrias", dizia Andréa, que fazia o passeio pela terceira vez. "Tenho certeza de que ele pensa o mesmo." Cláudia sabe que o frio atrapalhou o "desempenho" de Betinho, mas garante que o cão preferia estar ali a ficar trancado num quarto do hotel. O dia seguinte provou isso, quando Betinho deitou e rolou durante um trekking pela Fazenda 3 Quedas. O cachorro não quis saber de calçar os tênis que você vê na última página desta reportagem. Resmungou e sacudiu as patas até que fossem retirados. A contragosto, aceitou levar a mochila com sua garrafinha de água e nem parecia aquele cão intimidado do dia anterior.
Por uma trilha íngreme e apertada, o cocker correu sem dar muita bola para o guia até a Cachoeira da Andorinha, de 23 metros de altura. Só não estava totalmente à vontade por causa do barulho da água, que lembrava o medo sentido no dia anterior, e também por estranhar ver duas pessoas penduradas numa corda fazendo rapel. No caminho para a Cachoeira da Figueira, uma queda de 47 metros, ele nem se incomodou em dividir o espaço com uma cadelinha vira-lata acostumada às trilhas da região. Beberam água e até ensaiaram uma brincadeira no lago formado pela cachoeira. Na volta, o casal de cães disparou e só freou na porteira de saída da fazenda, onde uma pinga com mel e um delicioso gramado esperavam seus donos. A parada seguinte de Betinho foi o banco traseiro do carro, onde no colo de Cláudia o cão dormiu de porta a porta.
12 DICAS PARA VIAJAR COM SEU CACHORRO
1 Coloque uma plaquinha de identificação na coleira do animal
2 Aplique vermífugo e antiparasita
3 Leve o telefone do veterinário responsável pelo cão
4 Evite que ele coma nas horas que antecedem a viagem
5 Não esqueça dos documentos de identificação e vacinação
6 Leve uma garrafinha de água
7 No frio, não esqueça do cobertor
8 Não o transporte solto na caçamba ou dentro do carro
9 Prefira gaiolas presas a cintos de segurança
10 Faça paradas para ele beber água, movimentar-se e fazer as necessidades
11 Não deixe o animal sozinho dentro do carro
12 Verifique freqüentemente se está tudo bem com o cão
DOCUMENTOS, POR FAVOR!
Está para nascer um policial militar rodoviário que vai apreender seu cachorro caso ele não esteja portando o Guia de Trânsito Animal (GTA). Mas é bom saber que o documento é obrigatório caso você pretenda cruzar divisas estaduais em sua viagem. Para tirá-lo, leve o atestado de saúde (se o animal tiver até 3 meses) ou a carteira de vacinação (para animais acima dessa idade) a um posto do Serviço Estadual de Defesa Animal ou a uma Delegacia Federal da Agricultura. Há também veterinários autorizados a emitir o GTA. Não esqueça ainda de levar o Registro Geral de Animais (RGA), que é a carteira de identidade dos bichos. Nele constam um número de identificação, nome, raça, data de nascimento e os dados do proprietário. O documento pode ser feito em pet shops credenciados, clínicas veterinárias e em centros de zoonoses.
A maneira mais segura de transportar seu cachorro nas viagens de carro é em gaiolas especiais presas a cintos de segurança, vendidas em pet shops. Se o seu cão for grande, o melhor é transportá-lo no porta-malas (mas só no caso de veículos em que o bagageiro tenha abertura para o banco traseiro). A dica é ensaiar uma familiarização do animal com a caixa no carro dias antes do embarque.
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