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Mais verdades inconvenientes

Depois de Al Gore, agora é o astro Leonardo DiCaprio quem solta a voz contra o aquecimento global. Ele juntou especialistas no assunto e produziu o documentário A Última Hora, que chega ao Brasil em novembro

Alessandro Giannini

Matéria publicada na edição 186 (Outubro/2007) de Terra


Leonardo DiCaprio

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O repetitivo e óbvio discurso para tentar brecar o aquecimento global precisa às vezes de vozes grossas, criativas e famosas. No ano passado, a luta ecológica ganhou o poderoso apoio do ex-vice-presidente dos Estados Unidos Al Gore, que capitaneou Uma Verdade Inconveniente, filme que faturou o Oscar de melhor documentário e, de certa maneira, colocou o assunto de uma vez por todas na mídia com números e imagens alarmantes. A voz do momento no cenário verde também promete fazer eco. Leonardo DiCaprio, 32 anos, que já havia feito dois curtas-metragens sobre o aquecimento global (Global Warming e Water Planet, disponíveis no www.youtube.com), acaba de estrear como produtor de A Última Hora, documentário dirigido pelas irmãs Leila e Nadia Conners. O enredo, segundo palavras do próprio ator, que atua como narrador do filme, "é a urgência de preservar o meio ambiente e reverter os estragos cometidos nos últimos anos por uma tradição de excessos e descuidos no tratamento do nosso planeta". DiCaprio conta que resolveu bancar a nova produção por considerar um absurdo que ainda hoje se questione o aquecimento global. Para mostrar que há um consenso na comunidade científica sobre a responsabilidade do homem nos danos causados no planeta, o filme dá voz a cientistas, ativistas e políticos. "Precisamos nos unir antes que seja tarde demais", bradou o astro de Hollywood em entrevista exclusiva à TERRA, durante o lançamento do filme em Los Angeles, nos Estados Unidos. O ator, que esteve na Amazônia em 2004 com sua então namorada, a modelo brasileira Gisele Bündchen, elogiou o pioneirismo do Brasil na busca por combustíveis alternativos e lamentou a postura dos Estados Unidos. "Nós somos os maiores poluidores do mundo e não fazemos nada contra isso." A Última Hora já estreou nos EUA e entra em cartaz no Brasil em 9 de novembro - mas antes disso pôde ser visto no Festival de Cinema do Rio, em setembro, e será exibido este mês na Mostra de São Paulo.

Como você se envolveu com A Última Hora?
A idéia surgiu do meu envolvimento com o movimento ambientalista. Eu não ouvia aqui nos Estados Unidos a mídia fazendo a devida a conexão entre as insanas mudanças climáticas e a destruição dos recursos do nosso planeta. Por isso, pensei em reunir um grupo de especialistas na questão que mostrassem que o aquecimento global já é uma dura realidade. Mais de 90 por cento da comunidade científica concorda com isso, o que é praticamente um consenso. Eu queria ouvir o que essas pessoas tinham a dizer e dar eco aos seus argumentos.

A história da sua militância ecológica está ligada à floresta amazônica?
Assistir a derrubadas de arvores foi o que realmente fez com que eu me tornasse um ambientalista ainda jovem. Eu assistia a documentários sobre desmatamento na Amazônia e via a destruição de hábitats e a morte de espécies. Isso me afetou emocionalmente desde muito cedo. A floresta amazônica é um dos lugares que precisam ser protegidos de um modo profundo. É provavelmente a maior maravilha natural do mundo.

Qual, na sua opinião, é o papel do Brasil nesse contexto?
O Brasil está dando um ótimo exemplo ao usar o combustível vegetal. É surpreendente o quanto vocês estão ficando independentes energeticamente. Já o meu país, infelizmente, ainda está para fazer isso. Continuamos sendo os maiores poluidores do mundo e não fazemos nada para reverter esse quadro.

Certa vez, você disse que entre ser o papa e o presidente dos EUA, preferia ser o segundo para mudar a política ambiental de seu país. Se você fosse conselheiro do presidente Lula, o que sugeriria que ele fizesse nessa área?
Posso falar pelos Estados Unidos e o que fazemos aqui. Não sei se tenho conhecimento suficiente para comentar sobre o Brasil, mas endosso o que o seu país está fazendo para se tornar menos dependente de combustível estrangeiro. É um grande passo, sem dúvida. De qualquer forma, eu aconselharia o presidente Lula a educar o povo e a continuar a educar a nova geração que vai herdar o mundo. O meio ambiente deve pautar o pensamento e a consciência de todas as pessoas.

O agente de alfândega que me atendeu quando cheguei aos EUA sabia sobre o seu documentário e disse que você está apenas "embarcando na onda do Al Gore"...
E eu estou feliz e orgulhoso de estar nessa onda, porque acho que Al Gore sabe o que fala. Há uma multidão de pessoas que concorda que o aquecimento global é uma realidade. São pessoas que não têm interesses velados ou corporativos, que devotaram suas vidas à questão ambiental e vão continuar a fazê-lo. Al Gore é mais uma delas.

O filme Uma Verdade Inconveniente, de Al Gore, cobre praticamente todas as questões relativas ao meio ambiente. Por que você acha que as pessoas devem ver o seu filme?
Se não fosse pelo filme do Al Gore, um filme como o nosso não seria possível. Como ambientalista, ele colocou essa questão ambiental candente na nossa consciência. Mas nosso filme traz outra perspectiva, porque fala de responsabilidade pessoal, de soluções e do papel do governo e das corporações. E há soluções que podem reduzir as pegadas humanas no meio ambiente em 90 por cento, usando recursos que estão disponíveis hoje em dia. Espero que apareçam mais filmes com esse tipo de conteúdo e sob diferentes perspectivas para educarmos as pessoas.

Seu filme trata de conceitos pouco conhecidos, o que pode torná-lo de difícil compreensão, especialmente em países como o Brasil.
Não é um problema só do Brasil. Aqui nos Estados Unidos também existe isso. Há pessoas que nos vêem como elite e dizem que nós deveríamos viver nossa vida de uma outra maneira, sem ficar dizendo que somos defensores do meio ambiente. Em outras palavras, acham que deveríamos cuidar das nossas vidas. Mas não é o caso. Não quero impor às pessoas o que elas têm de fazer. Meu desejo é apenas ajudar a educar o público para que ele, por exemplo, use o poder de voto. Ou seja, que vá à cabine de votação para eleger líderes políticos que vão se esforçar definitivamente para colocar essas questões ambientais importantíssimas no nosso dia-a-dia.