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Nobre beleza

O cenário com águas cristalinas e cavernas lembra o de Bonito, mas Nobres, no Mato Grosso, tem uma vantagem: o sabor da descoberta

POR THIAGO MEDAGLIA, da Vila Bom Jardim

Matéria publicada na edição 186 (Outubro/2007) de Terra


O verde-claro do mergulho no Salaboão: cores de Nobres

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O jipe sacoleja ao sabor dos buracos na estrada de terra. Quem está dentro dele acompanha o ritmo inevitável. Estamos em agosto, tempo de seca e das queimadas. Em função disso, no horizonte, uma névoa constante dá ao sol um tom avermelhado, sobretudo no fim de tarde. O pó levantado pelos pneus em movimento encobre os galhos retorcidos do cerrado e, diante da impotência do ar-condicionado, surge um dilema: fechar o vidro e passar calor (faz uns 30 e tantos graus lá fora) ou abri-lo e respirar poeira? Alternamos entre o suor na camisa e a coceira no nariz, quase certos de que não há nada para ser visto por aqui. Mas é só uma impressão passageira. A realidade em Nobres, no interior do Mato Grosso, se mostraria muito mais improvável e fascinante do que qualquer prévia pessimista.

O que dizer, por exemplo, da Dolina Pai João? Para todos os efeitos, dolinas são enormes buracos no chão, geralmente, ocasionados pelo desabamento do teto de cavernas e tomados por água. A do Pai João se encontra na propriedade do homem que lhe empresta o nome. "Ele tá no hospital. Tá velhinho já", diz Esquerdinha, o filho e herdeiro de Pai João. "A caminhada até lá é meio braba", avisa. O trajeto não é longo, mas, para o azar das canelas, os arbustos ressequidos são cheios de espinhos cortantes e de carrapatos minúsculos.

REINO DAS ÁGUAS


Quando alcançamos a dolina, no entanto, isso tudo é nada. Entre o meio-dia e as 2h da tarde, os raios do sol incidem sobre o lago de um azul intenso e a luz reflete no imponente paredão rochoso. Parece miragem. "Mergulhamos 80 metros nessas águas e não atingimos o fundo", assegura Kleber, guia local e instrutor de mergulho. Inexplorada e isolada, a Dolina Pai João é um lugar a ser desvendado - a exemplo de todo o município de Nobres. Ninguém sabe ao certo qual a profundidade desse imenso buraco e de que forma ele está conectado com a intrincada rede de lençóis freáticos e cavernas daqui. "Para se ter uma idéia, a uns 20 metros abaixo da superfície existe um túnel no qual percorremos 400 metros em linha reta e não encontramos a saída", continua.

Situada aos pés da Serra Azul, Nobres não é daqueles redutos de beleza óbvia, à vista de qualquer um. Sua grande riqueza está embaixo do chão arenoso e da vegetação castigada pela escassez das chuvas, por onde correm rios subterrâneos. Abundantes, eles cortam distâncias enormes, atravessam grutas como, por exemplo, o Ducto do Quebó, um túnel natural com 400 metros de comprimento, cujas paredes servem de refúgio para os morcegos. Outras torrentes traçam caminhos desconhecidos e surgem em lugares inesperados, brotando em cachoeiras com dezenas de metros de altura ou em nascentes chamadas de ressurgências.

O solo rico em calcário faz a outra parte do serviço, depositando as partículas no fundo dos rios e dando às águas uma transparência total. O cenário é bastante parecido com o de Bonito, cidade no Mato Grosso do Sul que nos últimos dez anos se transformou num dos maiores destinos turísticos do Brasil. Com diversas espécies de peixes, entre eles dourados e piranhas, algumas cobras e até arraias, Nobres ainda está longe da estrutura de Bonito, mas lhe sobra - além da beleza - a inocência típica aos lugares desconhecidos e ricos em vida selvagem. Na Vila Bom Jardim, o ponto central para as atrações naturais, há quem garanta ser comum avistar jacarés atravessando as ruas de terra, em plena luz do dia.

Tanta variedade não é por acaso. A Serra Azul é um importante divisor de águas. Na parte alta dos morros, nascem os rios que abastecem a Bacia Amazônica. No sopé, os da Bacia do Prata, da qual faz parte o Pantanal. Nos rios de Nobres, portanto, há animais encontrados nos dois sistemas fluviais. Por sinal, o Mato Grosso é o único estado brasileiro no qual é possível encontrar grandes faixas da Amazônia, do Pantanal e do Cerrado. Infelizmente, o estado é também um dos campeões em desmatamento, principalmente para a produção de soja.

Nobres, apesar de ser permeada por diversas propriedades rurais, ostenta um alto nível de preservação, mantido, entre outras razões, pela criação do Parque Estadual da Gruta da Lagoa Azul no ano de 2000. A caverna de mesmo nome é considerada uma das mais bonitas da região, com estalactites logo na entrada e um lago azul claro no qual vivem pitus e lambaris. "Há outras coisas também", diz, cheio de mistério, seu Juvêncio, 70 anos de idade.

O MONSTRO DE SALOBÃO


"Sou só um índio velho", desconversa o homem, quando perguntado sobre o que teria visto na gruta. Descendente da tribo bacairi - parentesco evidente no tom escuro da pele surrada pelo sol e cheia de sulcos -, Juvêncio, nascido e crescido na Serra Azul, conserva as tradições aprendidas na lida. Exibe, orgulhoso, sua viola de cocho, instrumento do Centro-Oeste brasileiro, assim chamado por ser feito com uma única peça de madeira, à semelhança do processo de produção dos cochos nos quais o gado se alimenta em fazendas. "É com a viola que tocamos o cururu e dançamos o siriri", conta, sobre os festejos típicos. "Nós não paramos de festar", sorri.

Foi cruzando os caminhos da serra para comercializar milho, feijão e mandioca produzidos pela família, que Juvêncio diz ter presenciado de tudo: de estranhas luminosidades a jaguatiricas com cabelo vermelho se banhando em cavernas; de assombrações que o empurraram para dentro da velha caminhonete a grutas ainda desconhecidas. Na Lagoa do Salobão, uma das principais atrações de Nobres, Juvêncio tomou conhecimento de um monstro. "Um bichão enorme, peludo e sem cabeça." Não viu com os próprios olhos, mas conheceu o homem que enfrentou a criatura. "Melhor não falar disso moço. O povo não gosta."

E se engana quem pensa ser papo de contador de história. Há dez anos, quando Kleber e alguns companheiros apareceram no Salobão para o mergulho pioneiro, o rebuliço foi total. Impressionadas com a picape lotada de cilindros na caçamba e aqueles homens vestindo roupas de borracha da cabeça aos pés, as pessoas do lugar se aglomeraram. De todos os lados, surgiam senhoras com o terço nas mãos, rezando em voz alta, com os braços estendidos aos céus. Os guris os olhavam como se fitassem defuntos. "A princípio, não entendemos nada", lembra Kleber. O motivo não era a estranheza, mas sim o medo de que o tal monstro do Salobão desse cabo da vida dos forasteiros. do Salobão desse cabo da vida dos forasteiros.

Tanto pavor por nada. Àquela altura, mal sabiam as devotas, o danado já havia sido morto. "Foi o Cordeiro, o homem que morava na beira da lagoa", assegura Juvêncio. "Ele enfiou uma adaga no monstro, que gritou feito potro. Só que depois o Cordeiro não prestou pra mais nada: endoideceu." O triste fim do sujeito e as súplicas das senhoras não impediram o mergulho.

Embaixo d'água, não se avistou nenhuma aberração. Em vez disso, o que se viu foi um exagero de formas de vida. "Logo na primeira vez, percebemos o potencial do lugar." Ligada ao Rio Salobra por um estreito canal, a lagoa serve de viveiro para vários animais. Os monstros de verdade atendem pelo nome de sucuris, jacarés, piranhas e pintados de 1 metro e meio de comprimento e até 70 quilos - os dois últimos avistados durante o nosso mergulho.

A GRITARIA DAS ARARAS


Variedade maior, no entanto, se encontra no Rio Triste. Uma vez mais, o percurso não anuncia em nada o que está por vir. É preciso cruzar porteiras e atravessar pastos repletos de bois e cabras para topar com o rio. De fora, a transparência da água já impressiona. Dentro dela, então, há um mundo inteiro, totalmente insuspeito para quem não se propõe a afundar a cara. Máscara e snorkel prontos, papetes nos pés, colete no corpo, flutuamos ao capricho da leve correnteza.

Abaixo de nós, peixes de todos os tipos e tamanhos: piraputangas, corimbas, piavas e vários outros. Os dourados, parrudos e com dentes afiados, são os mais bonitos - e também os mais arredios. Escondem-se entre as raízes imersas das árvores ou entre as algas. O fundo do rio é de areia, mas há grandes pedras em intervalos irregulares. Elas são a única chance de parar para tirar água de dentro da máscara sem levantar suspensão e espantar os bichos. Vez ou outra, surgem pontos nos quais o fundo arenoso parece se mover. São as ressurgências, nascentes naturais pelas quais o lençol freático abastece o rio.

Numa olhadela para cima, um grupo de macacos-prego grita sobre nossas cabeças, passando de um lado para outro pela copa das árvores. Nas margens, cobras-corais falsas. Cabeça de volta à água e o zoológico submerso não cessa: arraias, um pequeno peixe vermelho chamado mato-grosso e uma capivara em pleno mergulho. Saímos em êxtase. E, pisando o capim, voltamos caminhando em meio às vacas. Mesmo com o visual constante do gado, a profusão de animais encontrada nas águas de Nobres se dá também na superfície, embora camuflada em meio à vegetação ressecada.

É comum avistar emas, siriemas, quatis, rastros de cotias e pacas. Não raro, surge um bezerro morto em alguma propriedade, vítima de onça-parda. Na Lagoa das Araras, outra preciosidade local, buritis com a base dos troncos submersa se converteram em abrigos para uns 40 casais de araras-canindé. Elas costumam colorir o céu com suas penas azuis e amarelas ao final do dia, justo quando o sol se põe, vermelho. Em revoada, gritam anunciando a chegada. As curicacas e os papagaios respondem. O espelho- d'água reflete a imagem dos buritis e ninguém se importa se foi difícil chegar até aqui.

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