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As outras vozes de Mianmar

O desconhecido país asiático fez-se ouvir em setembro, quando militares abriram fogo contra monges desarmados. Mas por trás da tirania esconde-se um dos destinos mais exóticos e fascinantes do planeta

Décio Galina

Matéria publicada na edição 187 (Novembro/2007) de Terra


Regina de Grammont

Lenha e criança se equilibram nas costas da birmanesa em Bagan

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Hoje é um dia especial. É o dia da nossa independência [4 de janeiro]." Quem fala é uma birmanesa de seus 40 anos. Usa óculos e tem as bochechas amarelas, carregadas de maquiagem. Simpática, nos abordou na rua enquanto batíamos pernas ao léu. Ela desfia um bom inglês e não demora dez minutos para convidar o casal de turistas estrangeiros a conhecer seu apartamento. Não se incomoda com a presença de uma Sony VX 2000 gravando a cena. Mostra-se à vontade frente à câmera. No prédio, não há elevador. Nas escadas, degraus precários, paredes esburacadas, descascadas. Entre os aposentos, as divisões são de madeira. Gente pra cá e pra lá. A porta da sacada aberta não refresca. Faz um calor danado na sala.

O papo vai bem. Ela conta a história das últimas décadas, desde a cisão da Inglaterra em 1948. "Nós enfeitamos a cidade com a bandeira nacional para celebrar a data." Duas perguntas aparentemente inofensivas, no entanto, azedam a conversa. "Qual o seu nome? O que você faz aqui em Yangun?" Ela se desculpa e acena negativamente. Não vai se identificar e pronto. Então, deixa pra lá. Mudamos de assunto. Marido, filhos, amenidades. Mais dois dedos de prosa e estamos convidados para um casamento no início da noite e, na seqüência, um show de rua com atrações musicais - a principal delas uma menina cega, famosa no bairro. Balada forte. Um programa desses não dá para resistir: topamos.

O sorriso da anfitriã vira bico quando o diálogo segue, de novo, para temas proibidos. "O que você pensa sobre o futuro do país? Você acha que Mianmar está no caminho certo?" Imediatamente ela leva o indicador à boca como enfermeira em maternidade. Levanta. Agita os braços pondo um ponto final na conversa. Sou obrigado a apertar o stop da câmera. Falar sobre o dia de amanhã e avaliar a evolução da nação num país que vive sob ferrenha ditadura militar e abre fogo contra monges desarmados não é nada confortável. Melhor ficar calado.

MANCHAS VERMELHAS NA CALÇADA


Também não há o que dizer assim que se chega ao centro de Yangun, principal cidade de Mianmar, antiga Birmânia, país de 56,5 milhões de habitantes. Tiro as mochilas do porta-malas do táxi e, embasbacado com o vai-e-vem de uma multidão tão heterogênea, resolvo dar um tempo na calçada, antes do check-in no Central Hotel. Pensei que já estivesse vacinado após algumas incursões pelo Sudeste Asiático, mas os primeiros minutos na cidade deixam claro que tenho que rever a conotação da palavra exótico. Mal acredito no que vejo. É uma miscelânea incrível de povos e de religiões. Birmaneses, chineses, indianos, pele clara, pele escura, mulheres com o rosto todo pintado de thanaka (creme feito à base de uma árvore de mesmo nome usado por razões estéticas, mas também para se proteger do sol), homem vestindo o tradicional longyi - espécie de saia com um nó na cintura que dá a impressão de o pessoal ter saído apressado do chuveiro com a toalha enrolada. Tipos muito distintos entre si, como se fossem passistas de diferentes escolas de samba se encontrando antes do desfile.

Em comum, as incessantes cusparadas no chão. Isto mesmo: o som ambiente é composto por uma orquestra de escarros. Os homens não param de mascar uma trouxinha feita de folha de bétel, tabaco, cal virgem e fruto de areca. Ao expelir a gosma, deixam manchas vermelhas na calçada, a marca registrada de Yangun. Como tudo na vida, logo você se acostuma com o hábito local. E por mais que cerca de 90% da população do país seja budista, Yangun é um liquidificador de seitas. Além dos monastérios e estupas da turma de trajes cor de açafrão, os mesmos quarteirões comportam igrejas cristãs, templos hindus e mesquitas muçulmanas. Tudo na mais santa paz.

Os primeiros momentos em Yangun remetem a uma satisfação especial só pelo fato de ter conseguido ingressar no país. Durante os preparativos da viagem (feita de forma independente, sem pacotes ou prévia programação estipulada por agência de turismo), recebi instruções nada convencionais do funcionário que me atendeu por telefone no consulado. "Sim, precisa de visto e é necessário preencher um formulário. Qual a profissão do senhor?" Respondo com sinceridade: "Jornalista". "Ih, é melhor mudar... Jornalista não entra. Vai viajar acompanhado?" "Sim, com uma fotógrafa." "Ih, pior ainda... É melhor colocar outra profissão no pedido de visto..." Foi assim que fiz minha primeira viagem como publicitário, acompanhado por uma dona de casa. Confesso, porém, que criar histórias para ingressar em um país sob pesada cortina de ferro adiciona um belo frio na barriga nas emoções de praxe de uma jornada à Ásia.

O desejo de conhecer Mianmar com os próprios olhos - lugar classificado pela secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, como "vanguarda da tirania" ao lado de Coréia do Norte, Irã, Cuba, Zimbábue e Bielo-Rússia - insere o viajante em uma profunda polêmica: é correto perambular por essas plagas? Tem gente importante que garante que não. Aung San Suu Kyi, principal nome contra os militares que dominam o país e Prêmio Nobel da Paz em 1991, encabeça a lista das autoridades contra o turismo. Encarcerada em prisão domiciliar em Yangun há anos, ela rechaça qualquer viagem de lazer no país, argumentando que esse tipo de atividade financia os militares e fortalece a ditadura. Líder da Liga Nacional pela Democracia e filha do general Aung San (herói da independência), Suu Kyi venceu as eleições livres de 1990, mas foi arrancada do poder. Por ela, o turismo só deveria voltar quando os eleitos democraticamente retomassem as rédeas do país - qualquer visita antes disso apenas fomentará os mandos e desmandos do general Than Shwe, líder da junta militar que governa desde 1988 o país considerado o mais corrupto do planeta.

É fato, no entanto, que os estrangeiros em Mianmar funcionam como observadores do que realmente acontece por lá. São os viajantes que espalham as notícias que os ditadores tentam bloquear a qualquer custo. São os viajantes que, estupefatos com as belezas do país, o colocam na pauta do dia e fazem pessoas de lugares distantes - como você, caro leitor - se interessar pelo o que se passa nesse pedaço de terra espremido entre Tailândia, Bangladesh, Laos, Índia, o Mar de Andaman e a China, o vizinho mais influente. Prova disso é o trabalho do jornalista italiano Tiziano Terzani (1938-2004), autor de Um Adivinho Me Disse. Na obra em que narra o ano (1993) em que não viajou de avião orientado por um adivinho, o correspondente internacional entra em Mianmar por terra, como turista, e flagra cenas terríveis de jovens prisioneiros políticos acorrentados, transportando troncos de árvores e quebrando pedras no leito de um rio. Cenas dramáticas.

SULE PAYA, O PONTO DE ENCONTRO DE YANGUN


Ficar ali, parado, ao lado das mochilas, na porta do Central Hotel, admirando as dezenas de etnias que compõem a face do birmanês já valeria o ingresso. Mas não foi bem por isso que resolvi ir para o país asiático. Mianmar, aliás, foi conseqüência: de início, o que buscava mesmo era o complexo de Bagan - principalmente os 50 templos, com idade entre 700 e 1.000 anos, que se espalham num raio de 7 quilômetros, à margem leste do Rio Ayeyarwady. Endereço para rivalizar com Angkor, no Camboja, como "o" lugar mais incrível do planeta Terra (veja só que não é pouca coisa). Por essas e outras, deixei Bagan para o final da viagem. Agora, o importante era conseguir me mover, fazer o check-in e gastar a sola em Yangun, a ex-capital.

Na cidade, o negócio é bater perna e estar preparado para surpresas a cada esquina, como a simpática moradora que abriu as portas de casa para falar algumas coisas para a câmera e resolveu nos convidar para um casamento e um show de rua. Independentemente da direção que se ande em Yangun, uma hora ou outra você tromba com o Sule Paya, templo que, dizem, conserva um fio de cabelo de Buda e serve de ponto de encontro dos birmaneses. E isto é fantástico: investir tempo em um local apenas observando como funciona a rotina e os trejeitos dos habitantes. A estrutura dourada, octogonal, tem 46 metros de altura e, por sua loca lização central, apareceu muito no noticiário internacional no final de setembro, quando os monges começaram as passeatas contra a ditadura imposta pelos militares. Duas avenidas se cruzam na rotatória que cerca o Sule Paya. Sobre uma delas, a Mahabandoola, uma curiosidade que exemplifica bem o mix religioso da cidade: ela comporta uma mesquita, uma sinagoga e uma igreja, sem contar o Sule Paya transpirando budismo.

Por mais que uma voltinha sem compromisso seja um programa sensacional em Yangun, devo confessar, no entanto, a ansiedade de ver logo o Shwedagon Paya, o lugar mais sagrado dos budistas no país. Todo birmanês deseja visitar Shwedagon pelo menos uma vez na vida. A cúpula dourada na zona norte da cidade tem 98 metros de altura, 2.500 anos de história e é cercada por dezenas de templos menores e estátuas de divindades. Lugar para ficar o dia todo. Lugar para ser admirado com as mais diferentes luzes do dia. Gente orando, gente lavando pequenas estátuas com caneca, gente jogando conversa fora depois de sair do trabalho. Shwedagon Paya é uma das principais atrações do país - mas é café pequeno frente os lugares que ainda estariam por vir: Lago Inle e Bagan, como você verá mais adiante.

Para quem não resiste a um bom mercado de artesanatos e lembranças, a dica é o Bogyoke Aung San, a poucos quarteirões (à esquerda) do Central Hotel. Entre os dois prédios, há uma avenida chamada Shwedagon Paya, endereço de outros três mercados interessantes - um deles a céu aberto - para ver de perto o birmanês tocando a vida como ela é. Vale muito a pena também caminhar cerca de 1 quilômetro do Sule Paya até o Botataung Paya - além do templo em si, com seu labirinto de corredores espelhados, a região é premiada com belos visuais da movimentação de barcos no Rio Yangun (bom momento para se investir num pôr-do-sol na maior cidade do país - se bem que, "o" pôr-do-sol de Mianmar será mesmo em Bagan).

PERNA ENROSCADA NO REMO


Chega de vida urbana. Hora de seguir para o norte do país em busca do Lago Inle. Um lago que desde a primeira vez que ouvi falar me impressionou a idéia de gente remando com o pé. Como assim? Não entendia como era possível alguém conseguir remar com uma perna trançada no remo e se equilibrar na outra, bem na ponta da canoa. Até que vi a cena - e continuou sendo difícil de compreender. Mesmo porque é tão bonito que você não faz a menor questão de explicar aquele balé fenomenal. O Lago Inle tem 22 quilômetros de norte a sul, 11 quilômetros de largura e é cercado por montanhas. Os 17 vilarejos nas ilhas e margens do lago são habitados pelo povo Intha, imigrante das redondezas de Dawei, no sul do país. A pacata Nyaungshwe é a melhor base para desbravar a região. Mas pouco se fica na cidade.

Os dias começam e terminam no lago. A alvorada é misteriosa, coberta de bruma, com curtos campos de visão. De repente brotam da neblina dois pescadores usando longyi, remando com um dos pés, tão equilibrados que parecem se apoiar na névoa densa. E assim como chegaram, no repente seguinte desaparecem. Será que vi aquilo? Será que estou acordado? O Lago Inle confunde as idéias. A superfície serena reflete palafitas e jardins flutuantes, o sol vence a bruma, e tudo começa a brilhar. O passeio de canoa pelos canais é um bom primeiro passo para se acostumar com o universo do lago. Em seguida, um barco a motor possibilita esticadas maiores, para lugares como Templo Phaung Daw U Paya (o mais importante da região) e o Nga Phe Kyaung (com uma coleção de imagens de Buda de diferentes estilos e gatos treinados por monges para saltar argolas). Ao sul do lago, o vilarejo Kyauk Taung é especialista em cerâmica. Ao norte, pode-se ver a fabricação artesanal de cigarros. A oeste, em Indein, as mais de 400 colunas de madeira do Templo Shwe Inn Thein ficam no topo do morro. Ah, sim, a vista do lago lá de cima é demais. A leste, dá pra fazer um belo passeio de bicicleta até Maing Thauk (saindo de Nyaungshwe), vilarejo baseado parte em terra firme, parte flutuante. Coisas de Lago Inle.

TEMPLOS QUE NÃO SE APAGAM DA MEMÓRIA


Se a viagem terminasse ali, no lago, já estaria feliz da vida. Mas não. Faltava ainda o prato principal e motivo maior da jornada: Bagan. Os dias em meio a uma infinidade de templos fazem o forasteiro se perder. Não são apenas os templos "em si", mas o clima e a vida rural que se desenrolam com os seculares monumentos como pano de fundo. Rebanhos de cabra e de vaca, lavradores colhendo, gente andando de bicicleta e mulheres carregando crianças e lenha em cestos de palha. Apesar de a vida seguir seu curso, muitas vezes você se encontra só numa área enorme, ocupada apenas por construções seculares, de estilos arquitetônicos distintos. Assim como uma criança que acaba de chegar a um parque de diversões, sem saber em qual brinquedo se atirar, em Bagan não é fácil escolher o templo que será admirado primeiro. Correr direto para o badalado Ananda Pahto (construído em 1105, restaurado após terremoto de 1975 e com quatro Budas de 10 metros no interior)? Mas como passar incólume por Shwegugyi e Thatbyinnyu? O negócio é ter calma.

Mesmo após definir qual será o roteiro, surgem cenários que convidam a mudanças de planos entre um um templo e outro. Existem duas opções de locomoção: bicicleta e charrete. A paisagem é aberta e vários picos aparecem no enquadramento - uma das grandes diferenças em relação ao complexo cambojano de Angkor, onde os templos ficam encobertos pela mata. Em Bagan não é permitido escalar todos os monumentos. Para o pôr-do-sol, os recomendados (e permitidos) para subir são Mingalazedi, Shwesandaw e Minyeingon. Muito aplaudidos também são os de cúpula dourada: Dhammayazika e Shwezigon. Entre os 2.217 templos espalhados, outros dois destaques são os gigantescos Gawdawpalin e Sulamani; e o inacabado e piramidal Dhammayangyi. Há ainda os que exibem muros internos pintados, como o Gubyaukgy, ou que chamam a atenção pelo topo peculiar, como o Mahabodhi, que segue o modelo do templo de mesmo nome em Bodhgaya, na Índia. É tanto templo que impregna a cabeça para sempre. Desde já acredito que Bagan será desses lugares que nunca se apagarão da memória. Lugares que se contam para os netos, vendo fotos desgastadas pelo tempo e mostrando uma revista de décadas atrás, de um longínquo novembro de 2007, época em que ainda imperava a ignorância de uma ditadura militar que chegara ao cúmulo de disparar contra monges desarmados. Época em que Mianmar se fez ouvir na Terra.

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