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Terra > Janeiro/2008 > Pico da Neblina

O Brasil do topo

Fome, calor, mosquitos, chuva, dor, bolha, frio, medo... Tudo isso e mais 3.014 metros montanha acima para chegar feliz da vida ao cume do Pico da Neblina

Texto e fotos de André Dib, da Boca do Tucano

Matéria publicada na edição 189 (Janeiro/2008) de Terra


André Dib

Depois de quatro dias de caminhada, a visão do ponto culminante do país

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Marcelo Fernandes acordara cedo para começar a descida da montanha depois de seis dias embrenhado na mata. A chuva fina que caía desde a noite anterior só fazia aumentar a ansiedade e o sofrimento do grupo. Os carregadores, exaustos, desmontavam acampamento em meio a discussões calorosas causadas pelo cansaço mental. A conquista do Pico da Neblina, dois dias antes, não havia sido suficiente para acalmar os nervos exaltados da equipe, preocupada em chegar à Boca do Tucano, onde dias antes haviam encostado a canoa. O corpo cansado, exposto à umidade implacável, minava água e pedia o fim da caminhada. Era a hora do tão esperado encontro com o barco, quando os dias de luta, suor e bolhas seriam apenas lembranças e o sabor do triunfo ganharia força na mente.

A aventura pelo noroeste da Amazônia, onde a maior montanha do país ergue-se a 3 014 metros de altura, parecia perto do fim. Minutos depois das primeiras remadas, no entanto, um homem de baixa estatura e traços fortes apareceu repentinamente entre as árvores e com gestos guerreiros ordenou que a canoa rumasse até o Rio Cauaburis. Os "intrusos", entre eles Marcelo, foram cercados por 60 índios armados de arcos, flechas e espingardas. Atônitos e silenciosos, sob o olhar hostil daqueles habitantes da floresta, os forasteiros não tiveram reação. As armas, engatilhadas, dissuadiam qualquer idéia de fuga. E, pensando bem, fugir para onde?

Resignado, o grupo seguiu as ordens dos nativos e remou pelas águas traiçoeiras do rio até a aldeia, onde os líderes tribais decidiriam o futuro de todos. Os indígenas estavam furiosos porque os montanhistas haviam entrado na área sem a autorização expedida pela Associação Yanomami do Rio Cauaburis e Afluentes (AYRCA). Para conseguir o documento, é preciso convencer as lideranças sobre as boas intenções da expedição. Afinal, a região, na tríplice fronteira entre Brasil, Venezuela e Colômbia, é alvo de garimpos clandestinos, biopirataria e ainda está colada à área dominada pelos guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Depois de cinco horas debatendo a situação, as lideranças indígenas decidiram liberar os invasores. Mas sem mochilas, equipamento fotográfico e nenhum registro que lembrasse a conquista do Pico da Neblina pelo grupo.

Um ano e meio após esse episódio, desembarco em São Gabriel da Cachoeira, cidade às margens do Rio Negro cercada por montanhas e pela imensidão da maior floresta tropical do mundo, para encontrar Marcelo. Ele será o guia da nossa expedição à maior montanha do Brasil, mas dessa vez garante que tomou todas as precauções. Na manhã seguinte, 13 de outubro de 2007, o ranger das molas do caminhão militar cedido pelo Exército marca o início da "brincadeira". O primeiro trecho, de 85 quilômetros pela empoeirada BR-307, margeia pequenas comunidades indígenas. Na carroceria, eu, Marcelo, outros quatro viajantes, 280 litros de combustível, mantimentos, mochilas e uma canoa motorizada de 11 metros de comprimento - único meio de penetrar nas sinuosas vias fluviais do Parque Nacional do Pico da Neblina, o terceiro maior do país, e que forma com o Parque Serrania la Neblina, da Venezuela, uma das maiores áreas protegidas do planeta. Após cruzar a Linha do Equador e passar pela inspeção da Funai, paramos em Ya-Mirim ("rio pequeno", em tupi), onde dois experientes nativos se juntam à expedição: Zezinho e Félix. A pequena vila encontra-se na Reserva Indígena do Balaio, região habitada por diferentes etnias de tucanos, desanas, yepamashãs, cobéuas, tuiúcas, pira-tapuias, banivas, barés e tarianas.

O caminhão nos deixa nas barrancas do Ya-Mirim, e passamos toda a tralha para a canoa. Muitas curvas e chuvas depois, surge Nazaré, uma aldeia ianomâmi, onde o cacique Matheus e o pajé Manuel nos recebem com cordialidade. Oferecem-nos uma deliciosa carne de paca e uma maloca para passarmos a noite. Em troca, deixamos com eles alguns saquinhos de tabaco extraforte, aceitos sem cerimônias. Somos apresentados a Índio, apelido irônico do único morador da aldeia que não tem ascendência indígena direta. Ele também entra no nosso time, como carregador dos mantimentos necessários para a expedição.
Às 6 da manhã, sob um céu sombrio e ameaçador, retornamos às estradas fluviais da Amazônia sob a chuva de sempre. Entramos no Ya-Grande e dali embicamos nas águas traiçoeiras do Rio Cauaburis, o mesmo citado na amedrontadora história contada no início do texto. A navegação por ali é complicada. A água escura e turva esconde pedras fatais e troncos arrastados pelas correntezas. "Só quem tem o rio na memória vence o Cauaburis", diz Índio, minutos antes de passarmos por Maturacá, local do cárcere do desavisado grupo que ousou entrar naqueles domínios sem a autorização da AYRCA. Desta vez, a recepção dos indígenas é das mais civilizadas. Mas o sol risca rapidamente o céu e é preciso se mandar.

Já no lusco-fusco, pouco depois de uma pequena sucuri (não chegava a 4 metros) cruzar nosso caminho, estacionamos o barco, levantamos acampamento, tomamos banho no igarapé e esticamos o corpo nas redes cobertas pelos imprescindíveis mosquiteiros. Aos poucos a sinfonia da floresta ganha força e supera o zunido da voadeira, que ainda reverbera nos ouvidos. Cansados, corpo e mente ignoram o desconforto e desabam em sono profundo. Quando os primeiros raios de luz superam o teto verde da floresta, o canto das araras rompe o silêncio da manhã. A alvorada na Amazônia nos traz um sentimento insólito de pequenez, mais intenso até do que o percebido durante a noite. A natureza se impõe, suscitando fascinação, temor, admiração e respeito.

O barco fica encostado. Agora é preciso colocar o pé na lama em direção ao ponto culminante do território brasileiro. Logo nos primeiros passos, um barulho estranho de motor se aproxima. Desperta curiosidade. Félix pede silêncio. Astuto, percebe que o zunido na verdade é causado por um enxame de abelhas pouco acima das nossas cabeças. Salvos dos ferrões dos insetos, seguimos em frente e cruzamos com um improvável casebre feito de folhas de palmeira, onde duas ianomâmis rodeadas de crianças trabalham na extração de cipó para confecção de artesanato. O próximo obstáculo é a Cachoeira do Tucano, uma corredeira de águas transparentes. A chuva começa a despencar sem limites enquanto galgamos ladeiras sombreadas pela floresta primária. Em um clarão aberto por antigos garimpeiros, levantamos acampamento e, sem muito sucesso, tentamos evitar que a umidade penetre nas frestas mais protegidas das mochilas. O álcool em gel não dá conta de acender a fogueira. A lenha molhada precisa ser descascada para o fogo vencer a água.

A noite cai entoada por um agradável bate-papo ao pé da fogueira. Índio conta seu passado no garimpo, os sonhos de fortuna, as doenças e os companheiros mortos em busca de tempos melhores. Félix lembra as muitas incursões que fez na floresta hostil, quando trabalhava como cozinheiro do Exército. Foi uma época dura, em que acabou pegando oito malárias que quase o mataram. O sono, mais uma vez, vem fácil. Recompostos, levantamos acampamento e seguimos pela picada na mata, que logo nos encharca novamente. O calor beira o inferno. A marcha freqüente é interrompida apenas para goles d'água, para afastar os insetos (companheiros inseparáveis da jornada) e para apreciar (com um certo frio na espinha) as pegadas de onça que cruzam o caminho. Por volta das 11h30, chegamos a Bebedouro Novo. A proposta era esticar o dia até a base da montanha. O cansaço e a matemática, no entanto, falaram mais alto: estávamos a 845 m9tros de altitude e o acampamento, a seis horas de uma íngreme caminhada, ficava a quase 2 mil metros. Decidimos pelo descanso e por um mergulho sem pressa em piscinas naturais formadas depois que um volumoso rio precipita-se em corredeiras.

Entre raízes e troncos retorcidos, voltamos à trilha e aos percalços diários. A dura subida é o único caminho possível. Ao esbarrarmos nas pegadas do felino novamente, Félix nos aconselha a caminhar em grupo. Quando as copas das árvores dão uma trégua, avistamos a majestosa face rochosa do Pico da Neblina - um golpe de sorte, já que a montanha faz jus ao nome e sempre aparece envolta em uma densa e misteriosa névoa. Nesse trecho, o terreno começa a se modificar vagarosamente. O caminho coberto por lama e folhas dá lugar a musgos e líquens, formando um tapete traiçoeiro e escorregadio pelo aclive pedregoso. As árvores altas cedem espaço à vegetação de altitude. Bromélias e orquídeas enfeitam o visual e mostram uma Amazônia pouco conhecida. Os atoleiros são inevitáveis. Cada movimento precisa ser negociado. Um passo errado pode ser sinônimo de lama até o joelho - ou, muito pior, de contusões graves o suficiente para colocar em risco a jornada. O clima agora é montanhoso e frio. A chuva, no entanto, não pára.

ATOLEIROS NAS ALTURAS


Como previsto, chegamos ao acampamento-base quase seis horas depois. O riacho gelado que embeleza a paisagem não encoraja ninguém a mergulhar, mas um banho de gato é preciso. Acordamos sob um céu azulado e animador - teto ideal para o dia do ataque final. O cume dá as caras. Está decorado por uma rala nuvem pincelada no topo. A repentina visão da montanha e o chão coberto de bromélias animam a manhã. Por outro lado, quando colocamos os pés em ação, os atoleiros se aprofundam e travam o ritmo. Os músculos doem. A pele marcada pelas folhas cortantes explica por que a região é considerada uma das mais inóspitas e hostis do planeta.

No trecho final, a geografia se transforma abruptamente: o jardim jurássico de bromélias e raízes dão lugar a um caminho rochoso, abrasivo e firme. Um grande lance de pedras torna indispensável o auxílio de cordas. Um a um, com cuidado, passamos pelos abismos. Deixamos para baixo o desnível de 400 metros com o apoio de cordas podres e corroídas pelo tempo. Cada um segue o seu ritmo em um evidente momento de introspecção. A viagem se interioriza e o silêncio aumenta o volume da respiração, cada vez mais ofegante.

Quando a conquista do cume é inevitável, uma tempestade desaba sobre nós. Exaustão e felicidade. A bandeira do Brasil, cravada na pedra, grita freneticamente sacudida pelo vento. Castigados pelo frio, erguemos acampamento em menos de dez minutos e nos escondemos nas barracas. A chuva pára e a cortina de nuvens se abre. A paisagem se revela rapidamente e a alegria toma conta do grupo. Um grito ecoa pelos vales enquanto as nuvens não sabem se vão ou se ficam. O Pico da Neblina está conquistado.