De volta para o futuro
Vinte e um anos depois, o vapor Benjamim Guimarães, único no mundo ainda movido a lenha, retorna ao Rio São Francisco
Luis Patriani
Matéria publicada na edição 189 (Janeiro/2008) de Terra
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Pirapora, norte de Minas Gerais. O sol escaldante está igual. A terra ressequida, também. Aquele 25 de outubro de 2007, no entanto, parece diferente de todos os outros dias nos últimos 21 anos - a cidade está alvoroçada para receber de volta o vapor Benjamim Guimarães, que havia deixado de navegar no Rio São Francisco em 1986, encerrando um ciclo de 85 anos nas rotas regulares. É o retorno de um barco histórico, que faz reviver os tempos áureos de quando o Velho Chico era a principal ligação entre as regiões Nordeste e Sudeste, com cerca de 30 embarcações cruzando os 1 331 quilômetros de Pirapora à baiana Juazeiro.
Construído em 1913, nos Estados Unidos, o vapor de 60 metros de comprimento começou prestando serviço no Rio Mississippi, até ser adquirido pela Amazon Corporation, na década de 20, que o trouxe para navegar no Rio Amazonas. A empresa norte-americana logo faliu, porém, e o barco foi comprado pelo brasileiro Júlio Mourão Guimarães e desviado para as águas do São Francisco. Restaurado em 2004, o Benjamin acaba de ser liberado pela Marinha para navegar novamente - e numa condição muito especial, já que passa a ser a única embarcação de grande porte, em todo o mundo, movida a lenha. Uma verdadeira raridade, que percorrerá dessa vez um trecho bem mais curto, os 169 quilômetros entre Pirapora e São Romão, também no norte mineiro, mas com a promessa de fazer muitas escalas num passado glorioso.
A pacata cidade está em festa. Na praça central, grupos folclóricos esbanjam alegria na Dança de São Gonçalo, Folia de Reis e Bumba-meu-boi. Há um clima de otimismo no ar. Grande parte dos 55 mil habitantes de Pirapora espera que as viagens turísticas do Benjamim, mesmo esporádicas e caras (estão previstas apenas seis em 2008, ao custo de 2880 reais por pessoa), possam desencadear a ressurreição do transporte fluvial no Velho Chico, cujo apogeu foi entre 1958 e 1972. Desde então, o rio entrou num processo de constante assoreamento, causado pelas 18 toneladas de sedimentos que recebe por ano. Os bancos de areia se multiplicaram a tal ponto que inviabilizaram a navegação comercial. Os vapores do São Francisco - mais conhecidos como "gaiolas" - só sobreviveram na memória dos ribeirinhos e nas réplicas vendidas por artesãos da região.
O apito toca, com força. Esbanjando estilo, o Benjamim Guimarães zarpa ao som de fogos de artifício. Todas as medidas foram tomadas para que o barco não encalhe no trajeto. As comportas da barragem Três Marias foram abertas para elevar o nível das águas em 70 centímetros, e placas de sinalização recém-instaladas indicam o caminho a seguir em todo o percurso. "Antigamente não era assim. Dava para perceber os desníveis apenas olhando para a superfície da água", recorda o comandante Cassiano José de Castro, 78 anos, que deixou a aposentadoria de lado para conduzir novamente o velho barco, onde ganhou a vida por 47 anos. O veterano capitão, que aos 17 anos saiu de Cachoeira, na Bahia, para realizar o sonho de marinheiro em Pirapora, admite estar ansioso. "Meu coração bate acelerado. Nada pode dar errado nesta viagem", confessa, com alegria de menino.
O rústico barco de madeira segue resoluto, acompanhado de perto por uma lancha de apoio da Marinha. Não vai em linha reta, mas em ziguezague, seguindo à risca a rota traçada para desviar das armadilhas de areia. O casco, com apenas 1 metro abaixo da linha d'água, ajuda nas manobras e permite imprimir uma velocidade de cruzeiro de 20 quilômetros por hora. No primeiro piso, o operador de caldeira Francisco Amâncio Neto, 77 anos, outro funcionário resgatado do passado, é o responsável pelo combustível do Benjamim Guimarães. A dinâmica é simples e eficiente. A lenha queima na fornalha para aquecer uma caldeira, de onde sai o vapor que movimenta os pistões, fazendo girar a roda de popa. O perdulário Benjamin queima montanhas de madeira - mas os tripulantes se apressam a explicar que toda essa lenha vem de áreas reflorestadas. Todos concordam que a devastação antes necessária para abastecer as embarcações do Velho Chico de combustível não tem mais sentido. Deve continuar no passado.
Um apito mais longo alerta para a primeira parada, na Barra do Guaicuí, bem no encontro do São Francisco com seu principal afluente, o poluído Rio das Velhas, que nasce em Ouro Preto e abastece a região metropolitana de Belo Horizonte. Guaicuí é outro lugar cheio de história. Do final do século 17 ao início do 19, era por esse caminho que mercadorias como sal, açúcar e milho eram levadas do Nordeste para centros de extração de ouro em Minas Gerais. Guimarães Rosa, que conhecia o norte de Minas como a palma da mão, escolheu Barra do Guaicuí como cenário da declaração de amor de Riobaldo por Diadorim, em seu romance Grande Sertão: Veredas.
Não se sabe ao certo quem ocupou primeiro a região. Se foi o bandeirante Fernão Dias ou fazendeiros baianos que expandiam suas criações de gado para o sul, orientados pela Coroa portuguesa, já de olho no precioso metal. O guia mirim Ítalo, de 13 anos, explica a origem do nome do lugar: "A Igreja de Pedra, ou do Senhor Bom Jesus de Matozinhos, começou a ser construída aqui em 1650. Foi abandonada quando as cheias e a malária expulsaram as pessoas para um terreno mais alto. Só as índias idosas não foram, por isso a barra passou a ser chamada de Guaicuí, que em tupi-guarani significa Rio das Velhas". Detalhe à parte: uma gameleira cresceu sobre o topo descoberto do antigo altar-mor, com suas raízes escorrendo pelos dois lados da parede da capela. Caprichos malucos da natureza.
De volta a bordo, o sertão ressequido agora prevalece nas margens, numa visão um tanto desoladora. São quilômetros a fio de barrancos sem vegetação. Às vezes, entre uma curva e outra, aparecem pequenas cabanas de pau-a-pique. Junto delas, humildes ribeirinhos acenam incrédulos para a embarcação que passa. Parecem não acreditar no que vêem. Os mais antigos devem voltar no tempo e lembrar quando esses gaiolas transportavam até 200 passageiros em redes e esteiras (sem contar as cabines da primeira classe), espremidos entre bois e fardos de mercadorias.
A trilha sonora da viagem pelo Rio São Francisco é o assobio do vapor que sai a todo instante por orifícios nas laterais do barco. Seu Cassiano ordenou mais lenha na fornalha porque está com pressa - não tem autorização da Marinha para navegar no escuro. No caminho para Ibiaí, onde o Benjamin vai aportar e passar a noite, o capitão conta causos que explicam por que esse gaiola é tão admirado na região. "Até os pracinhas que lutaram na Segunda Guerra Mundial foram transportados por nós. Passaram por aqui em direção aos portos de Pernambuco e do Rio Grande do Norte, de onde embarcariam para a Itália", lembra. Houve também o episódio de uma tocaia armada pelo bando de Lampião ao Benjamin, em Sergipe. "A sorte foi o comandante perceber a cilada a tempo e levar o barco para a outra margem", exalta o velho marinheiro.
A recepção em Ibiaí é emocionante. Centenas de moradores se aglomeram para rever o vapor depois de duas décadas. Alguns choram, discretamente. As crianças, que nunca tinham visto um barco parecido, passam horas admirando a grande atração. Os passageiros se misturam à população, tiram fotos, vão em busca de lembranças para comprar na cidadezinha - nem sempre com sucesso - e voltam para dormir nas cabines. Há 14 cabinas duplas no Benjamin, todas iguais, sem o ar-condicionado e a televisão que equipam qualquer cômodo dos modernos cruzeiros marítimos, mas com um charme bastante peculiar.
O sol já arde forte nas primeiras horas da manhã quando o Benjamin zarpa para o último dia de viagem. A única parada prevista antes de São Romão é na humilde vila de Cachoeira da Manteiga, onde os passageiros são recebidos por um grupo de escolares que encena numa piscina de plástico uma pescaria no Rio São Francisco. No final, lêem uma carta pedindo socorro para o rio, sua principal fonte de subsistência, e para elas próprias. As crianças "choram" por um leito que em alguns pontos está de fato doente. E discursam contra o projeto de transposição, que prevê a construção de dois canais de irrigação para abastecer as regiões mais secas de Pernambuco, Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte. Indagam como um rio que "pede água" pode oferecê-la para alguém. Avisam que os peixes, outrora abundantes, estão desaparecendo, porque as represas construídas ao longo do Velho Chico interromperam os ciclos de desova.
Cachoeira da Manteiga ficou para trás. São Romão se aproxima. A cidade do desembarque, hoje com 8 mil habitantes, foi fundada em 1668 e ficou conhecida como palco da "Revolta do Sertão", em 1736, episódio em que coronéis regionais resistiram a bala contra o aumento dos impostos e da fiscalização para inibir o contrabando de ouro. O comandante Cassiano capricha no apito. O som não é mais de nostalgia, mas de pura alegria, estimulando a multidão a aplaudir de pé a chegada do imponente e glamouroso vapor Benjamim Guimarães. Nunca o futuro foi tão parecido com o passado em São Romão, nem tão bem-vindo.
Antes de embarcar no Benjamin, vale a pena conhecer um artesanato de Pirapora que já rodou o mundo na capa de livros e é uma ótima lembrança de viagem: os bordados com a trama especial inventada por Antônia Dias. A técnica surgiu quando dona Antônia tinha 16 anos e decidiu improvisar nos bordados do próprio enxoval de casamento, misturando linhas de seda, lã e algodão em rebuscados pontos sobrepostos. Mais tarde, ensinou o que sabia para cinco de seus oito filhos. Com a ajuda de sua prole, dona Antônia, que hoje tem 77 anos, já estampou essa curiosa arte em capas de livros de Jorge Amado, Marina Colasanti e Ziraldo. No entanto, os projetos mais gratificantes tocados por eles são os sociais. O "Caminho das Águas", realizado no ano de 1999, é um deles. Com o intuito de melhorar a auto-estima e o cooperativismo das populações ribeirinhas, uma caravana educativa, formada por 51 profissionais, percorreu a antiga rota comercial entre Pirapora e Juazeiro. Durante o percurso pelo Rio São Francisco, os voluntários ensinaram um pouco de suas habilidades, com destaque para a oficina de bordado, cujo produto final foi um imenso painel sobre a revitalização do Velho Chico.
Agonia e glória de outros vapores do Velho Chico
SALDANHA MARINHO
Construído pelo engenheiro Henrique Dumont, pai de Alberto Santos Dumont, esse vapor foi inaugurado em 1871 pelo imperador Pedro II. Iniciou a navegação regular no São Francisco em 1902.
MATA MACHADO
Mais possante dos gaiolas em atividade no São Francisco, era reservado aos comandantes mais experientes. As famílias mais importantes do país só viajavam nele.
SÃO FRANCISCO
Foi o penúltimo a parar de navegar, pouco antes do Benjamim Guimarães. Um incêndio de causa ignorada apressou sua aposentadoria.
CORDEIRO DE MIRANDA
Naufragou em 1943, perto da cidade de Remanso, na Bahia, matando 28 pessoas, na pior tragédia dos gaiolas do Velho Chico.
ANTÔNIO OLINTO
Foi a pique pouco abaixo de Juazeiro, quando levava soldados que iam prender revoltosos da Revolução de 1930. Vários policiais morreram.
Construído em 1913, nos Estados Unidos, o vapor de 60 metros de comprimento começou prestando serviço no Rio Mississippi, até ser adquirido pela Amazon Corporation, na década de 20, que o trouxe para navegar no Rio Amazonas. A empresa norte-americana logo faliu, porém, e o barco foi comprado pelo brasileiro Júlio Mourão Guimarães e desviado para as águas do São Francisco. Restaurado em 2004, o Benjamin acaba de ser liberado pela Marinha para navegar novamente - e numa condição muito especial, já que passa a ser a única embarcação de grande porte, em todo o mundo, movida a lenha. Uma verdadeira raridade, que percorrerá dessa vez um trecho bem mais curto, os 169 quilômetros entre Pirapora e São Romão, também no norte mineiro, mas com a promessa de fazer muitas escalas num passado glorioso.
A pacata cidade está em festa. Na praça central, grupos folclóricos esbanjam alegria na Dança de São Gonçalo, Folia de Reis e Bumba-meu-boi. Há um clima de otimismo no ar. Grande parte dos 55 mil habitantes de Pirapora espera que as viagens turísticas do Benjamim, mesmo esporádicas e caras (estão previstas apenas seis em 2008, ao custo de 2880 reais por pessoa), possam desencadear a ressurreição do transporte fluvial no Velho Chico, cujo apogeu foi entre 1958 e 1972. Desde então, o rio entrou num processo de constante assoreamento, causado pelas 18 toneladas de sedimentos que recebe por ano. Os bancos de areia se multiplicaram a tal ponto que inviabilizaram a navegação comercial. Os vapores do São Francisco - mais conhecidos como "gaiolas" - só sobreviveram na memória dos ribeirinhos e nas réplicas vendidas por artesãos da região.
O apito toca, com força. Esbanjando estilo, o Benjamim Guimarães zarpa ao som de fogos de artifício. Todas as medidas foram tomadas para que o barco não encalhe no trajeto. As comportas da barragem Três Marias foram abertas para elevar o nível das águas em 70 centímetros, e placas de sinalização recém-instaladas indicam o caminho a seguir em todo o percurso. "Antigamente não era assim. Dava para perceber os desníveis apenas olhando para a superfície da água", recorda o comandante Cassiano José de Castro, 78 anos, que deixou a aposentadoria de lado para conduzir novamente o velho barco, onde ganhou a vida por 47 anos. O veterano capitão, que aos 17 anos saiu de Cachoeira, na Bahia, para realizar o sonho de marinheiro em Pirapora, admite estar ansioso. "Meu coração bate acelerado. Nada pode dar errado nesta viagem", confessa, com alegria de menino.
O rústico barco de madeira segue resoluto, acompanhado de perto por uma lancha de apoio da Marinha. Não vai em linha reta, mas em ziguezague, seguindo à risca a rota traçada para desviar das armadilhas de areia. O casco, com apenas 1 metro abaixo da linha d'água, ajuda nas manobras e permite imprimir uma velocidade de cruzeiro de 20 quilômetros por hora. No primeiro piso, o operador de caldeira Francisco Amâncio Neto, 77 anos, outro funcionário resgatado do passado, é o responsável pelo combustível do Benjamim Guimarães. A dinâmica é simples e eficiente. A lenha queima na fornalha para aquecer uma caldeira, de onde sai o vapor que movimenta os pistões, fazendo girar a roda de popa. O perdulário Benjamin queima montanhas de madeira - mas os tripulantes se apressam a explicar que toda essa lenha vem de áreas reflorestadas. Todos concordam que a devastação antes necessária para abastecer as embarcações do Velho Chico de combustível não tem mais sentido. Deve continuar no passado.
Um apito mais longo alerta para a primeira parada, na Barra do Guaicuí, bem no encontro do São Francisco com seu principal afluente, o poluído Rio das Velhas, que nasce em Ouro Preto e abastece a região metropolitana de Belo Horizonte. Guaicuí é outro lugar cheio de história. Do final do século 17 ao início do 19, era por esse caminho que mercadorias como sal, açúcar e milho eram levadas do Nordeste para centros de extração de ouro em Minas Gerais. Guimarães Rosa, que conhecia o norte de Minas como a palma da mão, escolheu Barra do Guaicuí como cenário da declaração de amor de Riobaldo por Diadorim, em seu romance Grande Sertão: Veredas.
Não se sabe ao certo quem ocupou primeiro a região. Se foi o bandeirante Fernão Dias ou fazendeiros baianos que expandiam suas criações de gado para o sul, orientados pela Coroa portuguesa, já de olho no precioso metal. O guia mirim Ítalo, de 13 anos, explica a origem do nome do lugar: "A Igreja de Pedra, ou do Senhor Bom Jesus de Matozinhos, começou a ser construída aqui em 1650. Foi abandonada quando as cheias e a malária expulsaram as pessoas para um terreno mais alto. Só as índias idosas não foram, por isso a barra passou a ser chamada de Guaicuí, que em tupi-guarani significa Rio das Velhas". Detalhe à parte: uma gameleira cresceu sobre o topo descoberto do antigo altar-mor, com suas raízes escorrendo pelos dois lados da parede da capela. Caprichos malucos da natureza.
EMBOSCADA DE LAMPIÃO
De volta a bordo, o sertão ressequido agora prevalece nas margens, numa visão um tanto desoladora. São quilômetros a fio de barrancos sem vegetação. Às vezes, entre uma curva e outra, aparecem pequenas cabanas de pau-a-pique. Junto delas, humildes ribeirinhos acenam incrédulos para a embarcação que passa. Parecem não acreditar no que vêem. Os mais antigos devem voltar no tempo e lembrar quando esses gaiolas transportavam até 200 passageiros em redes e esteiras (sem contar as cabines da primeira classe), espremidos entre bois e fardos de mercadorias.
A trilha sonora da viagem pelo Rio São Francisco é o assobio do vapor que sai a todo instante por orifícios nas laterais do barco. Seu Cassiano ordenou mais lenha na fornalha porque está com pressa - não tem autorização da Marinha para navegar no escuro. No caminho para Ibiaí, onde o Benjamin vai aportar e passar a noite, o capitão conta causos que explicam por que esse gaiola é tão admirado na região. "Até os pracinhas que lutaram na Segunda Guerra Mundial foram transportados por nós. Passaram por aqui em direção aos portos de Pernambuco e do Rio Grande do Norte, de onde embarcariam para a Itália", lembra. Houve também o episódio de uma tocaia armada pelo bando de Lampião ao Benjamin, em Sergipe. "A sorte foi o comandante perceber a cilada a tempo e levar o barco para a outra margem", exalta o velho marinheiro.
A recepção em Ibiaí é emocionante. Centenas de moradores se aglomeram para rever o vapor depois de duas décadas. Alguns choram, discretamente. As crianças, que nunca tinham visto um barco parecido, passam horas admirando a grande atração. Os passageiros se misturam à população, tiram fotos, vão em busca de lembranças para comprar na cidadezinha - nem sempre com sucesso - e voltam para dormir nas cabines. Há 14 cabinas duplas no Benjamin, todas iguais, sem o ar-condicionado e a televisão que equipam qualquer cômodo dos modernos cruzeiros marítimos, mas com um charme bastante peculiar.
O sol já arde forte nas primeiras horas da manhã quando o Benjamin zarpa para o último dia de viagem. A única parada prevista antes de São Romão é na humilde vila de Cachoeira da Manteiga, onde os passageiros são recebidos por um grupo de escolares que encena numa piscina de plástico uma pescaria no Rio São Francisco. No final, lêem uma carta pedindo socorro para o rio, sua principal fonte de subsistência, e para elas próprias. As crianças "choram" por um leito que em alguns pontos está de fato doente. E discursam contra o projeto de transposição, que prevê a construção de dois canais de irrigação para abastecer as regiões mais secas de Pernambuco, Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte. Indagam como um rio que "pede água" pode oferecê-la para alguém. Avisam que os peixes, outrora abundantes, estão desaparecendo, porque as represas construídas ao longo do Velho Chico interromperam os ciclos de desova.
Cachoeira da Manteiga ficou para trás. São Romão se aproxima. A cidade do desembarque, hoje com 8 mil habitantes, foi fundada em 1668 e ficou conhecida como palco da "Revolta do Sertão", em 1736, episódio em que coronéis regionais resistiram a bala contra o aumento dos impostos e da fiscalização para inibir o contrabando de ouro. O comandante Cassiano capricha no apito. O som não é mais de nostalgia, mas de pura alegria, estimulando a multidão a aplaudir de pé a chegada do imponente e glamouroso vapor Benjamim Guimarães. Nunca o futuro foi tão parecido com o passado em São Romão, nem tão bem-vindo.
UM BORDADO E TANTO
Antes de embarcar no Benjamin, vale a pena conhecer um artesanato de Pirapora que já rodou o mundo na capa de livros e é uma ótima lembrança de viagem: os bordados com a trama especial inventada por Antônia Dias. A técnica surgiu quando dona Antônia tinha 16 anos e decidiu improvisar nos bordados do próprio enxoval de casamento, misturando linhas de seda, lã e algodão em rebuscados pontos sobrepostos. Mais tarde, ensinou o que sabia para cinco de seus oito filhos. Com a ajuda de sua prole, dona Antônia, que hoje tem 77 anos, já estampou essa curiosa arte em capas de livros de Jorge Amado, Marina Colasanti e Ziraldo. No entanto, os projetos mais gratificantes tocados por eles são os sociais. O "Caminho das Águas", realizado no ano de 1999, é um deles. Com o intuito de melhorar a auto-estima e o cooperativismo das populações ribeirinhas, uma caravana educativa, formada por 51 profissionais, percorreu a antiga rota comercial entre Pirapora e Juazeiro. Durante o percurso pelo Rio São Francisco, os voluntários ensinaram um pouco de suas habilidades, com destaque para a oficina de bordado, cujo produto final foi um imenso painel sobre a revitalização do Velho Chico.
DO GLAMOUR À SUCATA
Agonia e glória de outros vapores do Velho Chico
SALDANHA MARINHO
Construído pelo engenheiro Henrique Dumont, pai de Alberto Santos Dumont, esse vapor foi inaugurado em 1871 pelo imperador Pedro II. Iniciou a navegação regular no São Francisco em 1902.
MATA MACHADO
Mais possante dos gaiolas em atividade no São Francisco, era reservado aos comandantes mais experientes. As famílias mais importantes do país só viajavam nele.
SÃO FRANCISCO
Foi o penúltimo a parar de navegar, pouco antes do Benjamim Guimarães. Um incêndio de causa ignorada apressou sua aposentadoria.
CORDEIRO DE MIRANDA
Naufragou em 1943, perto da cidade de Remanso, na Bahia, matando 28 pessoas, na pior tragédia dos gaiolas do Velho Chico.
ANTÔNIO OLINTO
Foi a pique pouco abaixo de Juazeiro, quando levava soldados que iam prender revoltosos da Revolução de 1930. Vários policiais morreram.
PARA SABER MAIS: Oparatinga Rio São Francisco, livro de Carlos Alberto Libânio Christo (Frei Betto), Fernando Gabeira e José Caldas - Ed. Casa da Palavra; Navegação do Rio São Francisco, livro de Fernando Matta Machado - Ed. Topbooks; Espelho D'Água, uma Viagem no Rio São Francisco, filme de Marcus Vinicius Cezar.
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