O Líbano perto do céu
Num remoto vale libanês, em meio a milenares bosques de cedros, cristãos celebram sua fé nos mesmos moldes do século 4, enquanto a paz se afasta do país
Tariq Saleh
Matéria publicada na edição 192 (Abril/2008) de Terra
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Dizem que, durante as orações da primeira hora, a fumaça dos incensários se misturava com a neblina natural das montanhas. Era uma ótima forma de se esconder. Foi esse o local escolhido pelos seguidores de São Marão, os maronitas, no século 5, quando fugiam da perseguição do Império Bizantino. Posteriormente, esses mesmos morros serviriam de morada e refúgio contra algozes muçulmanos e otomanos. Hoje os maronitas representam a maior comunidade cristã do Líbano.
As pequenas aglomerações no Vale de Qadisha - que quer dizer lugar santo, em sânscrito - são ocupadas quase que totalmente pelos maronitas. Por aqui, os vilarejos e cidades menores têm uma importância igual ou, às vezes, até maior que Beirute. Coisas de uma nação de proporções diminutas, que caberia quatro vezes num pequeno estado brasileiro como o Espírito Santo. Cada um dos 18 credos religiosos professados em solo libanês e reconhecidos pelo governo tem o seu recanto específico, que acabam se transformando em refúgios ou centros de peregrinação para as comunidades que praticam esses cultos.
Não por acaso, Qadisha, agraciada naturalmente com o visual do Monte Líbano, com bosques de cedros, igrejas e conventos preservados, consta na lista de Patrimônios da Humanidades da Unesco como paisagem cultural. Recebe gente do mundo inteiro, embora nunca em grande quantidade, e costuma ser evitado pelos não-cristãos libaneses. "Estou aqui porque acredito na santidade deste vale", revela a visitante australiana Renee Bowyer, 31 anos, em viagem de peregrinação ao mosteiro de Deir Es Salib, construído no século 12. "Qadisha está dominado por cristãos fundamentalistas. Não ponho meus pés lá", rebate Rudi Akl, muçulmano xiita de 26 anos que trabalha como mecânico em Beirute.
Os libaneses vivem dias difíceis. A guerra com Israel é mais uma vez iminente. Os conflitos entre muçulmanos e cristãos nas ruas de Beirute têm lembrado os tristes anos da guerra civil, que, entre 1975 e 1990, arrasou o país (leia Paz distante). O preconceito levou muitos cristãos a não diferenciar muçulmanos comuns dos ativistas do Hezbollah, o grupo armado que combina radicalismo e trabalho social. Esta, por sinal, é uma mistura comum no Oriente Médio. "Aqui, bandeiras religiosas servem de plataforma política, o que acaba impedindo a integração", lamenta o historiador brasileiro Roberto Khatlab, 52, que há 21 anos vive no Líbano. Reféns do medo criado por eles mesmos, os libaneses não usufruem as maravilhas que existem em seu território. É como se, com suas próprias mãos, tivessem construído os muros que os aprisionam. Seis mil anos de história se encontram em lugares como Qadisha. "História libanesa, não cristã", destaca Khatlab.
Peregrinos e contrabandistas
Mesmo com o temor imperando e com o país às portas da guerra, o caminho para as montanhas do vale sagrado dos maronitas parece antecipar ares mais pacíficos. Afinal, Qadisha está ao norte de Beirute, enquanto a fronteira com Israel fica no sentido oposto. No sul do Líbano, a tensão é permanente, com vários postos do Exército nas estradas. Para o lado das florestas de cedro, entretanto, há somente duas barreiras. Ainda assim, com olhares desconfiados, os soldados costumam ordenar a parada de muitos motoristas. A preocupação não se limita à guerra em si, mas também ao contrabando de armas, um problema grave no país atualmente.
No passado, Qadisha não era procurada por contrabandistas, mas sim por peregrinos. Desde a chegada dos maronitas, o vale se mostrou um paraíso natural. Uma terra fértil em meio à aridez predominante no Oriente Médio, com muitas oliveiras, cabras gordas e mel abundante. Favorecidos pelo clima ameno da altitude, os cristãos ainda veriam prosperar ali suas plantações de damascos, maçãs, nozes e outros frutos. Cortado pelo Rio Qadisha Nahr, de águas turbulentas no verão, o vale tem seu início na pequena e deserta vila de Fradis, onde vivia a maioria dos eremitas no passado. A presença de abismos na região fez com que os locais criassem uma máxima propagada como alerta: aqui, dizem, os habitantes não morrem em suas camas; apenas dão um passo em falso num dia qualquer.
A origem de tais mitos remonta a um passado imemorial. Todo o vale, na verdade, é tomado por mistérios que se perderam no tempo. Descobertas arqueológicas nos anos 1990 trouxeram à tona afrescos cobertos por limo no Mosteiro de Mar Assia. São pinturas avermelhadas, típicas da cultura etíope, e letras do alfabeto abissínio. Tudo indica que essas cavernas tenham servido de abrigo para refugiados anteriores aos maronitas.
É possível dizer que os labirintos rochosos de Qadisha são, na verdade, um grande museu de História antiga. O problema é que muito já se perdeu com o passar dos anos, em função de saques que, na maioria das vezes, buscavam tesouros existentes apenas em lendas contadas pelos mais velhos. Pior que o envelhecimento natural causado pelo tempo ou os estragos feitos por saqueadores, no entanto, é a destruição que pode ser perpetuada em guerra civil ou em combate armado com Israel.
Por ser majoritariamente um reduto pró-governo, Qadisha tem vocação para a paz, mas seria exagero dizer que está livre de embates políticos. "Já existem aqui simpatizantes do Michel Aoun [líder maronita aliado ao Hezbollah]", observa Sharbel, um militante das Forças Libanesas, grupo político e paramilitar nacionalista cristão. "Não é à toa que alguns desentendimentos estão ocorrendo na região", acrescenta o militante, que, desconfiado, se recusa a revelar o nome completo.
Na estrada que circunda o vale, precisamente no antigo convento de Mar Sarkis, encontra-se outra prova da veia pacifista das montanhas libanesas: o Museu de Gibran, criado em homenagem ao maior poeta da língua árabe, Gibran Khalil Gibran (1883-1931), natural de Bcharré, cidade com casas de telhados avermelhados e pinheiros espalhados pelas ruas. O autor do clássico O Profeta é venerado em cada canto do país. "Ele é, provavelmente, a única unanimidade libanesa", opina o professor Roberto Khatlab. Em Mar Sarkis está localizada também sua sepultura.
De fato, a impressão é a de que quanto mais subimos as montanhas, menores ficam os problemas - ou seriam maiores as aspirações de paz? Bcharré é mesmo um lugar a se conhecer. Não só pela beleza singela de suas vias ou pelas recordações de Gibran, mas também por ser ponto de passagem até o Monte Líbano. O ar fica mais gelado, mesmo no verão, e o cenário é impressionante. A uma altitude de 2 800 metros é possível ver o pico de Qornet es-Sawda (Chifre Negro, em árabe), o mais alto do Líbano, com 3 088 metros. Diante de uma paisagem assim, é impossível não lamentar pelos libaneses que não conhecem seus próprios tesouros.
Os últimos cedros
Nessa mesma área encontra-se outra riqueza do país, o Bosque Arz al-Rab (Cedros do Senhor), onde é possível conhecer as mais antigas florestas de cedros em território libanês, com idade superior a mil anos. São 375 árvores catalogadas, algumas com 30 metros de altura e troncos com até 14 metros de circunferência. Elas crescem apenas acima dos 1 500 metros de altitude e são os últimos vestígios das vastas florestas que cobriam o Líbano antes da Era Cristã. "Desde aquele tempo, muitos cedros foram derrubados para fins comerciais", lastima Khatlab. Os fenícios, povo que se desenvolveu no comércio marítimo e habitava a região na Antigüidade, comercializavam a madeira para outras civilizações, entre elas a egípcia e a grega. O Templo de Jerusalém e o Palácio do Rei Salomão teriam sido construídos com cedros libaneses.
Em 1985, em plena guerra civil, uma associação foi fundada para proteger as reservas e o que sobrou dos cedros. Naquela época, o governo libanês começou a reflorestar as montanhas com a árvore e outros pinheiros. Tanto esforço se deve à simbologia dos cedros. As árvores, citadas em inúmeras passagens bíblicas, estão presentes também na bandeira do país, e suas características - raiz profunda, tronco forte e longevidade - fizeram com que fossem vistas como sinônimo de força e imortalidade.
O passeio pelos bosques encanta, sobretudo quando os cedros são cercados pela neblina típica das montanhas, ao amanhecer. Nesse período, o Monte Líbano projeta sua sombra sobre o Vale do Qadisha, dando um ar místico às manhãs. A presença de sacerdotes e peregrinos faz lembrar os cânticos em sânscrito do passado, quando o sangue de religiosos em martírio jorrava dessas cavernas.
De repente, um pequeno avião passa sobre um dos picos do Monte Líbano, em direção ao leste. Seria algo completamente normal em qualquer lugar, mas não no Líbano, já que o país não possui força aérea, com a exceção de uns poucos helicópteros. "É um avião de espionagem dos israelenses", diz o empresário local Tony Succar, 45 anos, dono de um hotel com vista para o vale. A ONU seguidamente acusa Israel de violar o espaço aéreo libanês com jatos militares e aeronaves de vigilância. Acostumados, no entanto, com o vaivém dos conflitos armados na região, o povo local lamenta, mas persiste em sua esperança. "Dizem que estamos perto dos bosques do Senhor", fala Succar, dando de ombros para o avião inimigo. "Essas matas nos protegem", conclui, com um sorriso no rosto.
LÍBANO EM RESUMO
NOME OFICIAL: República Libanesa
CAPITAL: Beirute
ÁREA: 10 400 km2
POPULAÇÃO: 3,6 milhões
IDIOMAS: árabe (oficial), francês, curdo, armênio
RELIGIÃO: islamismo (55%, xiitas, sunitas, drusos e outros), cristanismo (37%, católicos maronitas, ortodoxos e outros), judaísmo (uma pequena minoria)
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